DRIELLI PAOLA
Existe uma frase que costuma incomodar porque desmonta uma fantasia muito comum: “quem te ama não trata quem te fez mal como se nada tivesse acontecido”. Não estou falando de vingança. Tampouco de exigir que as pessoas rompam relações ou alimentem ódios eternos. Falo de algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais raro, a coerência afetiva.
Há uma diferença enorme entre perdoar e agir como se nunca tivesse existido uma ferida. Vivemos em uma época em que a neutralidade ganhou uma aparência de virtude. As pessoas dizem que “não querem se envolver”, que “cada um tem sua versão”, que “o importante é manter a paz”. Mas existe uma paz que custa caro demais, aquela construída sobre o silêncio de quem sofreu.
Carl Gustav Jung dizia que aquilo que negamos continua existindo nas sombras. E as sombras não desaparecem porque decidimos ignorá-las. Pelo contrário, elas crescem. Quando alguém trata com a mesma cordialidade quem machucou profundamente uma pessoa que ama, transmite uma mensagem silenciosa, a dor dela não foi tão importante assim.
O problema não é cumprimentar alguém por educação. O problema é oferecer intimidade a quem destruiu a tranquilidade de outra pessoa. É rir na mesma mesa, convidar para sua casa, trocar confidências, cultivar amizade como se nenhuma violência, física, moral ou emocional, tivesse existido. Porque o amor não é apenas um sentimento. É um posicionamento.
Quando uma criança sofre bullying, espera que os pais a defendam. Quando um amigo é injustiçado, esperamos que os outros amigos não finjam que nada aconteceu. Quando um companheiro atravessa uma traição ou uma humilhação, espera encontrar, ao menos dentro de casa, um lugar seguro.
É curioso como compreendemos isso em situações extremas, mas relativizamos nas dores cotidianas. Chamamos de maturidade aquilo que muitas vezes é apenas conveniência. Dizemos que é preciso “seguir em frente”, quando, na verdade, algumas pessoas apenas não querem renunciar aos próprios confortos para demonstrar lealdade.
Quem ama não precisa herdar as nossas brigas. Mas também não transforma quem nos feriu em companhia constante. Lealdade não exige espetáculo. Às vezes ela se manifesta em pequenas escolhas: não dar palco para quem machucou alguém querido, não minimizar o sofrimento alheio, não pedir que a vítima seja sempre a pessoa madura da história.
Existe uma violência muito discreta em obrigar alguém a conviver com a naturalização daquilo que o destruiu. Talvez porque o amor verdadeiro não seja apenas dizer “estou do seu lado”. É fazer com que essa frase apareça nas atitudes. Isso também vale para nós. Quantas vezes permanecemos próximos de pessoas que humilharam quem dizíamos amar? Quantas vezes preferimos a falsa diplomacia ao desconforto de estabelecer limites? Quantas vezes confundimos gentileza com ausência de critérios?
Jung afirmava que a individuação exige coragem para escolher quem somos, mesmo quando isso tem um preço. E toda escolha produz renúncias. Não é possível defender todos os lados ao mesmo tempo quando um deles produziu sofrimento deliberado. Quem ama entende que algumas pontes não precisam ser incendiadas, mas também não precisam continuar sendo atravessadas. Porque amor sem lealdade se transforma apenas em um sentimento bonito nas palavras.
E, no fim das contas, quem realmente nos ama talvez não consiga apagar todas as nossas dores. Mas certamente não fará delas um detalhe sem importância.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.