Querida pessoa que sente que nunca pertenceu completamente,
Escrevo para você que, desde muito cedo, carregou a estranha sensação de estar fora do lugar. Como se tivesse chegado atrasada em uma conversa que todos pareciam entender, menos você. Como se existisse um manual invisível sobre como viver, se relacionar e existir, e ele nunca tivesse sido entregue às suas mãos. Você aprendeu cedo a observar antes de falar.
A analisar ambientes. A medir expressões. A tentar entender por que certas coisas pareciam tão naturais para os outros e tão difíceis para você. Enquanto algumas pessoas ocupavam espaços com facilidade, você se acostumou a sentir que precisava pedir desculpas pela própria presença.
Talvez tenham chamado você de “sensível demais”. “Quieta demais”. “Intensa demais”. “Diferente demais”. Talvez tenham dito que você pensa muito, sente muito, se importa muito, se explica muito. E, aos poucos, sem perceber, você começou a acreditar que existir do seu jeito era um erro de fabricação. Mas não era.
O mundo moderno costuma premiar barulho, rapidez e superficialidade. E pessoas como você, que carregam perguntas difíceis dentro do peito, acabam acreditando que nasceram incompatíveis com a realidade ao redor. Só que há uma diferença entre não pertencer e não se encaixar em ambientes que diminuem quem você é.
Nem todo deslocamento significa defeito. Às vezes significa apenas que sua alma não nasceu para sobreviver em lugares rasos. Você sente demais porque percebe coisas demais. Sente o peso emocional dos ambientes. Guarda frases por anos. Se apega a músicas, cheiros, memórias e gestos mínimos. Enquanto o mundo corre, você observa. Enquanto muitos esquecem rápido, você continua sentindo. E isso cansa.
Cansa tentar traduzir sentimentos que ninguém parece compreender. Cansa olhar ao redor e sentir que existe algo faltando em todas as conversas. Mas existe uma coisa importante que talvez ninguém tenha lhe dito: há muitas pessoas como você espalhadas pelo mundo, silenciosamente tentando sobreviver à mesma sensação de inadequação.
Pessoas que também se sentem estrangeiras em festas lotadas. Que sentem saudade de lugares que nunca conheceram. Pessoas que carregam a impressão constante de que existe algo profundamente humano sendo perdido no meio da pressa cotidiana.
Talvez vocês apenas reconheçam a vida de uma maneira diferente. Talvez algumas almas não tenham vindo ao mundo para competir por espaço, mas para lembrar delicadeza. Para lembrar pausa. Para lembrar profundidade. E eu sei, às vezes dá vontade de endurecer. Fingir menos sentimento. Falar menos sobre o que importa. Tornar-se mais indiferente para sofrer menos. Mas toda vez que você tenta abandonar sua sensibilidade para caber no mundo, abandona junto partes importantes de quem é. Não faça isso.
O mundo já está cheio de gente que desaprendeu a sentir. Sua estranheza talvez não seja um afastamento da humanidade. Talvez seja justamente o contrário. Talvez você ainda preserve partes humanas que muita gente sacrificou para sobreviver. Então, por favor, não transforme sua profundidade em vergonha. Algumas pessoas nasceram para pertencer aos lugares. Outras nasceram para questioná-los. E talvez seja exatamente esse o seu caso.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.