Carta para quem acordou com a palavra ‘misantropia’

Querida pessoa que, em uma madrugada qualquer, levou um susto com o celular tocando como se o fim do mundo tivesse chegado,

Por alguns minutos, milhares de brasileiros compartilharam a mesma estranheza. Um alerta da Defesa Civil apareceu nas telas, acompanhado da palavra “misantropia”. Não havia explicação. Não havia tempestade. Não havia instruções. Apenas aquela palavra solitária, quase enigmática, atravessando o silêncio da madrugada. Mais tarde, descobriu-se que tudo fazia parte de uma invasão ao sistema. Mas a curiosidade já havia sido despertada. Afinal, por que exatamente essa palavra?

Misantropia é a aversão à humanidade. Achei curioso que uma palavra tão antiga tenha sido capaz de acordar tanta gente para uma pergunta mais atual do que gostaríamos de admitir. Porque, convenhamos, há dias em que o mundo parece fazer força para nos transformar em misantropos. Basta abrir as notícias. Guerras. Violência. Mentiras contadas em alta definição. Pessoas brigando por coisas pequenas e destruindo coisas grandes. Há momentos em que parece que a humanidade desaprendeu a conviver consigo mesma. Por isso algumas pessoas dizem, sem nenhum constrangimento, que preferem os animais. Ou o silêncio. Ou uma casa no meio do mato. E, sinceramente, é difícil julgá-las.

Mas existe algo curioso na misantropia. Ela raramente nasce da indiferença. Geralmente, ela nasce da decepção. Quem não espera nada das pessoas não se decepciona. Apenas segue em frente. Mas quem se entristece com a humanidade carrega, em algum lugar, a esperança secreta de que ela poderia ser melhor. E acredito que seja por isso que aquela mensagem tenha causado tanto desconforto. Porque, no fundo, ninguém quer acreditar que odiar a humanidade seja a conclusão final.

Mesmo quando reclamamos das pessoas, continuamos procurando amizade. Mesmo quando dizemos que não suportamos ninguém, ainda esperamos encontrar alguém que nos faça mudar de ideia. Continuamos escrevendo cartas, fazendo café para quem amamos, sorrindo para desconhecidos e segurando a mão de alguém em momentos difíceis.

A humanidade é contraditória. É capaz de criar bombas e canções de ninar. Constrói muros e hospitais. Inventa guerras e poemas. E talvez seja exatamente essa mistura de sombras e delicadezas que nos impeça de desistir completamente dela.

Achei curioso que um invasor tenha escolhido a palavra “misantropia” para assustar tanta gente. Porque, ironicamente, poucos minutos depois, milhares de pessoas estavam fazendo exatamente o oposto do que ela significa. Mandando mensagens para amigos. Perguntando se estava tudo bem. Rindo do susto. Tentando entender juntas o que havia acontecido. No meio da madrugada, em meio à confusão, havia uma pequena multidão fazendo aquilo que os seres humanos fazem de melhor quando esquecem de brigar: cuidando uns dos outros.

Com carinho, alguém que ainda acha que a humanidade é uma obra inacabada e que seja justamente isso que a torne tão interessante.