Teresinha Rouston

Se eu disser que se foi, terei dito uma grande mentira. A julgar pelo choque da notícia, por tantas manifestações, pelas lágrimas e pela imensa saudade, eu tenho certeza que permanece. Ficou em nós e por onde deixou esquecida alguma terna lembrança, seus valores, sua família, amigos e quem como eu, teve o privilégio de se sentar nos bancos escolares e aprender com a mestra. Não deu tempo de dizer à professora que andei costurando umas linhas, metaforizadas em uma colorida colcha de retalhos da qual ela faz parte e que está se tornando um livro que também dedicarei a ela. De contar que minha vida ficou marcada por ter se costurado à sua nos tempos em que passava uns domingos caprichando na letra, para que na segunda-feira estivesse perfeita a lição.

Me recordo seus olhos buscando meu lugar no canto junto à parede e dizendo meu nome para que levasse a lista de superlativos para correção. A tinta vermelha passando nas folhas, os óculos apoiados no nariz e esboçava algum sorriso, fazendo com que meu medo se transformasse em um imenso e eterno carinho. Reflexo do cuidado com que nos orientava por entre as paredes da escola Hermelina, onde passei tantos anos e guardei da infância essa mania de escrever uns versos e transbordar um pouco do que se passa aqui dentro.

Ah, Professora! Que pena não estarmos juntos daqui a pouco para conhecer o livro que estou preparando. Acredito que iria se sentir bem orgulhosa. Outro dia nos vimos e como sempre saudei sem saber que neste plano seria a última vez. Mas o encontro é ali. Logo mais poderemos falar a respeito, tenho certeza! Nossa fé assim nos ensina e na glória onde já está, estarei eu um dia e fique à vontade para me dizer se gostou do que escrevo aqui.

Dezenove de abril começou estranho e deixei escapar umas lágrimas quando a gente se juntou para orar pelo seu descanso. Me refiz e sai atravessando a rua para continuar enfrentando o mundo. Lembrei que certa vez pediu que eu esperasse ao término da aula. Quando ficamos a sós, me alertou sobre uma má companhia. Coisa que mãe faz. Coisa que uma sábia mestra faz pelo bem de um aprendiz. Ouvi seu conselho e tento me lembrar dele todos os dias, já que outros maus também de vez em quando se achegam.

Eu não me esqueci, professora, e ainda faço o mesmo. Me afasto de quem não me conhece, olha rápida demais e não quer o meu bem.

Minha oração e gratidão pela sua vida e pelos ensinamentos que deixou!

 

Luís Alberto de Moraes tem formação em Letras, leciona há quase vinte anos e prepara o lançamento de um livro de crônicas e poemas. @luis.alb

 

 

Posts similares

  • Todo dia eu tenho medo

    Todo dia eu tenho medo. Medo dessa saudade que eu ainda não tenho, dessa ausência que ainda não sinto. Vou olhando seus olhos castanhos de baixo para cima medindo cada centímetro meu, como se ainda fora aquele menino embalado que se encaixava nos seus braços. Protegido no teu colo ainda me segura, como se pudesse…

  • Crônica de Natal

    Quando nasceu o amor era pequeno e frágil. Na noite de Belém, o pobrezinho envolvido na manjedoura viu com os olhos humanos o mundo se abrir no frio e precariedade. Embalado pelo Simples Carpinteiro e a Bem Aventurada entre todas, abençoados por alguns poucos animais. O menino Deus, junto as criaturas da terra vocacionado ao…

  • Quando estoura uma guerra

    Que tristeza as imagens das cidades onde as pessoas são obrigadas a sair de suas casas e simplesmente fugir. Refugiar-se em outras terras e distante também da família, já que os homens não podem deixar o país. Suas esposas e filhos, as grávidas, os idosos, as crianças muito precocemente experimentando o amargo dos ódios, vaidades,…