Setembro Amarelo
“O que as pessoas mais desejam é ser compreendidas” (Carl Rogers)
Há pessoas que perguntam “tudo bem?” esperando ouvir “tudo”. Há outras que perguntam porque realmente querem saber. A diferença parece pequena, mas pode caber nela uma conversa inteira.
Setembro se veste de amarelo, mas prevenção ao suicídio não combina com frases prontas ou mensagens bonitas compartilhadas nas redes sociais. Combina com presença. Com escuta. Com coragem para permanecer quando a conversa deixa de ser confortável.
Os números ajudam a compreender a dimensão do problema. Em 2021, o Brasil registrou mais de 15,5 mil mortes por suicídio, segundo o Ministério da Saúde. No mundo, a Organização Mundial da Saúde estima mais de 720 mil mortes por ano.
Mas números, embora necessários, não contam tudo. Nenhuma estatística registra o silêncio de alguém sentado à mesa durante o jantar. Não contabiliza a mensagem apagada antes de ser enviada. Não mede o esforço de quem sorri para não precisar explicar o que sente.
Lembrando que o comportamento suicida não pode ser reduzido a uma única causa. Ele envolve fatores psicológicos, biológicos, sociais e ambientais. Depressão, perdas, conflitos, isolamento e uso de substâncias podem aumentar a vulnerabilidade, mas não existe uma fórmula simples capaz de explicar cada história.
Por isso, prevenção talvez seja menos sobre descobrir “quem está mal” e mais sobre construir relações nas quais alguém possa dizer que não está bem.E existe uma parte desse cuidado que não pode ser esquecida: pedir ajuda especializada.
Psicólogo, médico, psiquiatra e outros profissionais da saúde fazem parte dessa rede de proteção. Procurá-los não é sinal de fraqueza. É reconhecer que algumas dores precisam de cuidado, assim como qualquer outro problema de saúde.
Escutar também não significa ter a solução. Às vezes, significa permanecer em silêncio sem tentar preenchê-lo com conselhos. “Isso vai passar”, “você precisa ser forte” ou “pense positivo” podem parecer palavras de incentivo, mas nem sempre alcançam quem está sofrendo. Uma pergunta sincera pode fazer mais: “Quer me contar o que está acontecendo?”
Quando o sofrimento é intenso, persistente ou envolve pensamentos de morte ou de se machucar, não é hora de esperar passar sozinho. É hora de procurar ajuda. Talvez essa seja a reflexão que setembro nos oferece: nem toda dor pede uma resposta; algumas pedem companhia. E, às vezes, estar presente não resolve a vida de alguém. Mas pode ser justamente o que ajuda essa pessoa a continuar vivendo até que a ajuda necessária chegue.
Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.