O direito de mudar de ideia

Há algum tempo, passei a desconfiar profundamente das pessoas que nunca mudam de opinião.

Não me refiro àquelas que sustentam princípios que, quando bem construídos, merecem mesmo alguma permanência e até reverencia. Falo das convicções instantâneas, dos julgamentos apressados e da estranha necessidade de parecer absolutamente coerente o tempo todo.

Existe uma pressão silenciosa para que sejamos a mesma pessoa que éramos cinco ou dez anos atrás como se voltar atrás fosse sinônimo de fraqueza ou hipocrisia. Como se admitir um erro diminuísse nossa autoridade ou como se aprender fosse um defeito; enquanto isso, aprender, quase sempre exige abandonar alguma certeza.

Talvez por isso eu admire tanto quem consegue dizer “Eu estava enganado”. É uma frase pequena, mas que exige uma quantidade enorme de coragem e honestidade, sem espetáculo ou heroísmo.

Vivemos cercados de opiniões emitidas com velocidade impressionante e revisadas com uma lentidão igualmente impressionante. Tudo precisa ser definitivo, imediato, performático e categórico.

No entanto, a vida raramente é absoluta. Ela nos apresenta pessoas que não eram quem imaginávamos, histórias contadas pela metade, decisões que pareciam óbvias até que um detalhe mudasse completamente a perspectiva.

Mudar de ideia não significa abandonar valores, e sim reconhecer que muitas vezes a realidade é mais complexa do que a nossa primeira impressão sobre ela.

Talvez seja esse um dos exercícios mais difíceis da maturidade: preservar princípios sem transformar opiniões em prisão.

No fim das contas, penso que a verdadeira coerência não está em repetir eternamente as mesmas conclusões, mas permanecer fiel ao compromisso de buscar a verdade, mesmo quando ela nos obriga a contradizer a versão anterior de nós mesmos.

Há uma elegância latente em quem aprende com a vida e uma liberdade gigante em quem não tem vergonha de demonstrar que aprendeu.

 

*Victoria Contreras é advogada e servidora pública