Desinteresse crescente

Uma equação estranha assola o País nos últimos anos quando o assunto é eleição. Seja ela municipal ou geral, o que intriga é que o número de eleitores é cada vez menor, os que se ausentam das urnas cresce de forma contínua e a classe política, mergulhada em corrupção, oportunismo e ganância por poder, já não consegue cooptar nem mesmo os mais desavisados.

O voto, que já foi encarado como instrumento de transformação social, hoje é visto por grande parte da população apenas como uma obrigação burocrática. O eleitor deixou de enxergar sentido em comparecer às urnas para escolher representantes que, uma vez eleitos, parecem se afastar completamente dos problemas reais da sociedade.

Mairiporã é um exemplo claro desse fenômeno. Entre o pleito de 2022 — quando foram escolhidos presidente da República, governadores, senadores e deputados — e os dias atuais, o município perdeu mais de mil títulos eleitorais, pouco importando se por cancelamento, suspensão ou simples desinteresse em manter o cadastro ativo.

Nesse pacote, outro dado alarmante chama atenção: os jovens de 16 e 17 anos com direito a voto somam apenas 255 pessoas, o equivalente a míseros 0,39% do colégio eleitoral formado por quase 65 mil eleitores. Esse número já foi maior. Nos últimos três pleitos, no entanto, virou pó, refletindo o afastamento quase total da juventude da política institucional.

E não se trata apenas de apatia. Muitos jovens cresceram acompanhando escândalos sucessivos de corrupção, promessas não cumpridas, conchavos partidários e políticos que parecem mais preocupados com interesses pessoais do que com políticas públicas. Para eles, a política virou sinônimo de decepção.

Mas não são apenas os jovens que dão de ombros para os pleitos. As abstenções vêm batendo recordes a cada eleição. Em Mairiporã, o que um dia foi um índice de 15% hoje já ronda os 35%, ou seja, praticamente um terço do eleitorado deixa de comparecer às urnas. E os indicativos são de que esse número pode ser ainda maior no próximo pleito, especialmente em eleições gerais, quando não há candidatos locais e a população sente menos conexão com os nomes apresentados.

O crescimento das abstenções não é um fenômeno isolado. Ele se soma ao aumento dos votos brancos e nulos, que funcionam como uma espécie de protesto silencioso. O eleitor comparece, mas se recusa a escolher qualquer candidato, demonstrando que não se sente representado por nenhum deles.

Outro fator que contribui para esse distanciamento é a percepção generalizada de impunidade. Escândalos se sucedem, investigações se arrastam, condenações são anuladas e muitos políticos voltam à cena como se nada tivesse acontecido. Isso corrói a confiança da população e reforça a ideia de que “todos são iguais”.

Some-se a isso a falta de renovação real. Apesar dos discursos sobre mudança, os mesmos grupos políticos continuam se revezando no poder, muitas vezes apoiados por estruturas partidárias fechadas, que dificultam o surgimento de novas lideranças e afastam cidadãos comuns da vida pública.

Diante desse cenário, a pergunta é inevitável: que receita existe para reverter esse quadro?

A resposta parece não estar na mão dos políticos tradicionais, que demonstram desprezo pela situação e só se lembram do eleitor a cada quatro anos. Fora do período eleitoral, o cidadão volta a ser invisível. Suas demandas ficam esquecidas, seus problemas não entram na pauta e suas cobranças são ignoradas.

Enquanto a política continuar distante da realidade das pessoas, enquanto o discurso não se transformar em ação concreta e enquanto a ética não voltar a ser um valor essencial da vida pública, o desinteresse tende a crescer.

A democracia não morre de uma vez. Ela vai sendo esvaziada aos poucos, à medida que o cidadão perde a fé no voto e deixa de acreditar que sua escolha possa, de fato, fazer diferença. E esse talvez seja o maior risco que o País enfrenta hoje: não apenas eleger maus governantes, mas deixar de acreditar que é possível eleger bons.

 

 

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