Carta aos leitores

Querida pessoa que me acompanha por aqui.
Antes de começar, preciso te contar uma coisa. Decidi mudar o tom desta coluna. Não o sentimento, esse segue o mesmo, mas a forma. De agora em diante, por vezes, os textos virão como cartas. Cartas abertas, sem envelope, escritas para serem lidas no tempo certo, quando a vida apertar em algum lugar específico do peito.
Escolhi escrever assim, pois há momentos em que a gente não precisa de respostas, só de palavras que acompanhem. As cartas têm esse poder: não gritam, não explicam demais, apenas chegam. E ficam.
Às vezes esta coluna será pensada como uma carta para quem está vivendo algo agora – luto, espera, recomeço, cansaço, esperança. Talvez você se reconheça. Talvez guarde para reler depois. Talvez envie a alguém que precise mais do que você naquele dia. Não são textos para convencer, nem para ensinar. São tentativas de presença, impressões e palavras – afinal, esta página do jornal é, antes de tudo, um espaço de opinião.
E por alegria e sorte, tanto de quem escreve e quanto de quem lê, são opiniões humanas, imperfeitas, escritas mais para acompanhar do que para ter razão. Mas, se alguma carta encontrar você no instante exato, que ela cumpra seu papel. Se não, tudo bem, guarde. O tempo costuma saber quando abrir certas palavras.
Nesta semana escrevo como quem escreve para alguém específico, mesmo sem saber o nome. Como quem opina na vida alheia com cuidado, sem pretensão de verdade absoluta, mais como quem oferece um pensamento do que um veredito.
Escrevo compartilhando aquilo que penso, o que vivo e o que me faz mais feliz – sabendo, inclusive, que nem tudo aqui precisa ser levado tão a sério. Às vezes é só um jeito de olhar, uma provocação mansa, uma conversa. Ainda assim, acredito que palavras também podem ser abrigo.
E nesta primeira carta de 2026, escrevo para você que chegou até aqui com o coração meio gasto de tanto tentar, que atravessou o tempo com mais cicatrizes do que planos. Sei que virou o calendário com mais perguntas do que certezas, carregando promessas que não se cumpriram e sonhos que precisaram mudar de forma para continuar existindo.
Escrevo para você que sente essa mistura estranha de esperança e cansaço, como quem quer acreditar, mas já aprendeu a se proteger. Para você que entrou no ano novo com cuidado, quase na ponta dos pés, porque sabe que recomeços também cansam. Nem sempre são fogos, às vezes são silêncios. Quero te lembrar que não existe obrigação de chegar inteiro a janeiro. Você pode chegar aos poucos. Não é preciso ter metas grandiosas, respostas prontas ou uma versão melhorada de si mesma logo no começo.
Que este ano não te exija pressa nem força o tempo todo. Que ele te permita pausas sem culpa, mudanças de rota e silêncios necessários. Que você encontre abrigo nas pequenas coisas – num dia comum que dá certo, numa conversa honesta, num descanso merecido. Às vezes, seguir já é suficiente. Outras vezes, parar também é. E quase sempre, respeitar o próprio ritmo é o maior gesto de cuidado.
Se algo ficou para trás, deixe. Nem tudo que foi levado é perda – algumas coisas se foram porque cumpriram seu papel. E se algo ainda dói, não apresse a cura. Ano novo não apaga o que veio antes, mas pode ensinar jeitos mais gentis de carregar. Pense nisso.
Fica esta carta para te lembrar que todo começo merece gentileza, tempo e um pouco de acolhimento.
Com carinho, para quando você precisar.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.

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