Devaneios de uma mente agitada

Talvez o universo não tenha sido concebido para ser equilibrado, mas para ser profundo. Eu penso muito nisso, porque o mundo, por vezes, parece funcionar menos como uma máquina organizada e mais como uma obra baseada em contraste. As estrelas no espaço, com sua imensidão avassaladora, são criadas em meio ao vazio abissal, que nada traduz e tudo comunica.

Há flores e flora, frágeis e sutis, nascendo em meio ao concreto, rompendo o cimento quase definitivo, que de forma truculenta se impôs naquela terra, mas que é invadido por aqueles seres tão pequenos e efêmeros.

Se esconde delicadezas exatamente nos lugares mais inóspitos. Há oceanos inteiros se movendo violentamente enquanto, no fundo deles, criaturas simples e luminosas seguem existindo em absoluto silêncio. Existem arvores centenárias atravessando tempestades, secas e incêndios, permanecendo de pé enquanto tantas coisas aparentemente mais fortes desmoronam ao redor.

Há luas gigantes iluminando noites de pessoas solitárias, algo tão distante capaz de tocar emocionalmente alguém tão pequeno na imensidão do cosmos.

Parece que, frequentemente, o universo posiciona espantosa potência ao lado de excessiva vulnerabilidade, como se uma coisa jamais pudesse existir completamente sem a outra. Pessoas extraordinariamente inteligentes, por vezes, carregam fragilidades emocionais marcadas. Pessoas capazes de amar e compreender intensamente também parecem mais expostas à dor do mundo.

Quem percebe beleza com profundidade quase sempre percebe sofrimento na mesma medida. A sensibilidade humana vem fragmentada e não permite escolher apenas aquilo que desejamos sentir. A mesma estrutura interna que torna alguém capaz de se emocionar diante da arte, da natureza, dos animais ou da brandura das relações, também amplia sua percepção das ausências, crueldades e tristezas da existência.

Até o corpo humano parece feito de contraste. Carregamos um coração absurdamente frágil protegido por ossos rígidos, enquanto pensamentos sobrevivem dentro de uma estrutura criada para suportar impacto. É a matéria carregando consciência. Somos, ao mesmo tempo, objeto resistente e emoção vulnerável. O mesmo corpo capaz de cicatrizar cortes, suportar febres e sobreviver a dores físicas imensas, pode desmoronar silenciosamente por causa de uma ausência, uma palavra ou uma memória.

Criaturas biologicamente preparadas para resistir ao mundo, mas emocionalmente atingidas pelas coisas mais sutis. Um olhar diferente, um silêncio inesperado, uma lembrança específica ou um gesto de ternura são capazes de alterar o universo interno de alguém. Como se, apesar de toda a dureza necessária para existir ainda houvesse dentro de nós algo indefeso insistindo em permanecer vivo.

Acredito que seja assim que a existência encontre sentido: aproximando delicadeza e brutalidade, silêncio e excesso, permanência e efemeridade. Porque quase tudo aquilo que verdadeiramente nos atravessa nasce desse encontro improvável entre forças opostas. Como se o universo não tivesse sido criado para eliminar contrastes, mas para produzir profundidade através deles. Há algo poético na forma como a vida insiste em fazer coexistir dureza e sensibilidade.

Quem sabe por isso existam pessoas absolutamente gentis em tempos tão endurecidos, almas contemplativas em meio ao ruído constante, sensibilidades raras em um mundo cada vez mais concreto. O universo, em sua estranha inteligência, espalha pequenas formas de beleza exatamente nos lugares onde a humanidade corre maior risco de se tornar insensível.

Talvez toda grande beleza exista exatamente aí, no improvável equilíbrio entre aquilo que pode nos destruir e aquilo que nos mantém vivos.

 

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.