Tem uma coisa que a nossa geração tem aprendido rápido e na marra: o que uma pessoa mostra ao mundo raramente é o que vai salvá-la e, às vezes, é justamente o que vai afundá-la.
A gente vive numa época em que construir uma imagem virou quase um imperativo social e profissional. É quase como se você existisse na medida em que aparece, posta, é visto.
E nessa lógica, muita gente foi construindo versões de si mesma tão bem acabadas, tão consistentes, que esqueceu onde terminava a persona e onde começava a pessoa.
O caso de Deolane Bezerra (advogada, influenciadora, presa preventivamente pela segunda vez em menos de dois anos) é um exemplo que o Brasil acompanhou com uma mistura curiosa de surpresa e entretenimento. Mas por baixo do “espetáculo”, há uma questão que me interessa mais do que o processo em si: o que acontece quando a imagem que você construiu começa a falar por você e você não controla mais o que ela diz?
Porque é isso que acontece!
A persona cresce, ganha vida própria e em algum momento ela para de te representar e começa a te definir, inclusive para quem você não escolheu como plateia.
O problema não é aparecer, mas confundir aparência com identidade e acreditar que a narrativa que você construiu para o mundo é mais real do que a pessoa que existe quando ninguém está olhando. Mas em que momento isso deixa de ser ferramenta profissional e de autodesenvolvimento e vira armadilha? Talvez quando o personagem convence até você mesmo.
O fato é que aí vem a vida. Não necessariamente com um processo criminal como no caso da influenciadora que citei, mas pra nós, reles mortais, pode ser uma crise, uma perda, as consequências das atitudes off-line, uma relação que desmorona, uma decisão que exige força real e precisa vir de dentro, ou até negligências que foram sendo maquiadas, inclusive com a própria saúde.
E a persona, tão bem construída, tão aplaudida, não sabe responder.
Quem você é quando ninguém está assistindo? O que sobra fora do Instagram?
Porque é essa pessoa que vai ter que dar conta de tudo.
*Victoria Contreras é advogada e servidora pública