O sabor que a memória não esquece

RAPHAEL BLANES

“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante.” (Antoine de Saint-Exupéry)

Dia 30 de outubro é o Dia da Merendeira, e basta falar em merenda escolar para a memória despertar. O cheiro do arroz, do feijão preparado desde cedo, o sinal do recreio, a fila se formando e aquela voz acolhedora: “Quer mais um pouquinho, meu bem?”

Na minha época, havia um ritual especial. Quando o cardápio era macarrão com salsicha, eu levava queijo ralado de casa, como quem carregava um tesouro. Hoje percebo que o macarrão era quase coadjuvante. O verdadeiro encanto estava naquele detalhe e na sensação de que alguém, atrás do balcão, cuidava de nós. Aposto que você também tem seu prato favorito, e aquele dia da semana que não via a hora de chegar.

Essa pessoa tinha nome, rosto e avental: a merendeira. Ela conhecia quem repetia o prato, quem torcia o nariz para a sopa e quem chegava com fome de verdade. Talvez percebesse, sem perguntar, que para algumas crianças aquela era a refeição mais completa do dia. E servia mais um pouco, sem alarde, como quem dizia: “Pode comer, eu cuido de você”.

Seu trabalho vai muito além de preparar alimentos. É também uma forma de acolhimento. Afinal, com fome, ninguém consegue aprender direito a tabuada, prestar atenção na aula ou aproveitar plenamente a infância.

Vale lembrar também da querida “tia da cantina”, tão presente nas escolas que oferecem esse serviço. Ela vende o salgado, o suco e aquele doce disputado no recreio. Quem nunca sonhou com uma coxinha ou até tentou negociar um fiado? Mas existe uma diferença importante: a merendeira prepara a refeição que garante o direito à alimentação escolar; a cantina oferece outras opções para o intervalo. São funções diferentes, mas ambas fazem parte das lembranças de muita gente.

Nas escolas públicas ou particulares, a essência permanece. Mudam as cozinhas, os cardápios e as estruturas, mas alguém continua dedicando tempo e cuidado para alimentar crianças, adolescentes e adultos. Por trás de cada refeição, há trabalho, responsabilidade e gente que enfrenta calor, panelas pesadas e jornadas intensas para cumprir uma missão essencial.

Celebrar a merendeira é reconhecer uma profissão que, muitas vezes, só recebe atenção quando falta alguma coisa. Quantas vezes agradecemos por uma refeição sem lembrar de quem a preparou?

Reflexão – Quando lembramos da merenda, não recordamos apenas o sabor da comida. Recordamos a infância, os amigos, as brincadeiras e, sobretudo, as pessoas que cuidaram de nós nos pequenos gestos. Talvez o maior ingrediente daquela refeição nunca tenha estado na receita: era o carinho de quem servia. Obrigado, merendeiras! Vocês alimentaram nosso corpo na escola e deixaram sabores que a vida inteira não consegue apagar.

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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