O perigo de sentir saudade de um passado que nunca existiu

DRIELLI PAOLA

De vez em quando, alguém suspira e diz que, antigamente, as coisas eram melhores. As pessoas tinham mais respeito, as famílias eram mais unidas, as crianças obedeciam aos pais e o mundo parecia funcionar de um jeito mais simples. É curioso como o passado, com o passar do tempo, ganha uma espécie de filtro dourado, capaz de esconder até aquilo que, na época, fazia muita gente sofrer.

Talvez seja porque a memória tenha suas delicadezas. Ela guarda com carinho o cheiro do café na casa da avó, as brincadeiras na rua, as conversas demoradas e a sensação de que a vida acontecia sem tanta pressa. E tudo isso pode ter sido maravilhoso. O problema começa quando confundimos as boas lembranças com a ideia de que toda uma época era melhor para todo mundo.

Afinal, melhor para quem? Houve um tempo em que muitas mulheres precisavam da autorização do marido para trabalhar ou administrar determinados aspectos da própria vida. Em que a violência dentro de casa era tratada como assunto particular, e não como uma questão que exigia proteção. Em que pessoas negras enfrentavam barreiras ainda mais explícitas para estudar, trabalhar e ocupar espaços. Em que demonstrar determinadas diferenças podia significar exclusão, humilhação ou até violência.

Para algumas pessoas, o passado realmente parecia mais confortável. Principalmente para aquelas que nunca precisaram questionar os privilégios que possuíam. Isso não significa que tudo o que veio depois seja melhor. Temos problemas enormes, relações cada vez mais atravessadas pela pressa, excesso de informações e uma tecnologia que aproxima quem está longe enquanto, às vezes, afasta quem está sentado ao nosso lado.

Há motivos legítimos para sentir falta de certas coisas. Mas sentir saudade de uma época não precisa significar desejar sua volta por inteiro.

Podemos querer a tranquilidade das conversas antigas sem desejar os silêncios impostos. Podemos admirar a união das famílias sem defender que alguém precise suportar humilhações para manter um casamento. Podemos valorizar a educação e o respeito sem confundir respeito com medo, obediência cega ou impossibilidade de questionar uma autoridade.

Talvez a nostalgia seja tão sedutora porque nos oferece uma resposta simples para um presente complicado. Se antes tudo era melhor, bastaria voltar aos antigos costumes e recuperaríamos aquilo que perdemos. Só que a história nunca foi tão simples. O passado também teve suas injustiças, suas contradições e suas pessoas que sonhavam com uma vida diferente daquela que lhes havia sido destinada.

E foram justamente muitas dessas pessoas, inconformadas com o mundo em que viviam, que ajudaram a transformar a realidade.

O progresso não acontece porque tudo o que é novo é necessariamente bom. Acontece quando somos capazes de reconhecer o que merece ser preservado e o que precisa mudar. Tradições podem carregar afeto, pertencimento e sabedoria, mas também podem perpetuar desigualdades quando ninguém se permite perguntar por que determinadas coisas sempre foram feitas daquele jeito.

Talvez a pergunta não seja se antigamente era melhor. Talvez seja o que havia de bom naquele tempo que ainda podemos conservar, sem precisar carregar junto aquilo que tantas pessoas lutaram para superar. Porque amadurecer, como sociedade, também significa aprender a olhar para trás sem transformar o passado em um lugar perfeito onde nunca vivemos de verdade.

Que a saudade nos ajude a recordar o que foi bonito, mas que nunca nos convença a abandonar as conquistas que tornaram a vida mais digna para tantas pessoas.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.

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