Erros e ‘erros’
EDITORIAL
Filosofias à parte, é preciso admitir que errar, em qualquer atividade, pode conduzir a revelações, descobertas e, em situações extremas, até à morte. Também é fundamental compreender que erro não é apenas um termo associado ao engano, à falha ou ao esquecimento. Afinal, errar faz parte do cotidiano de todos os seres humanos.
O importante é analisar e avaliar as consequências do erro. O erro, em si, não se corrige; corrigem-se suas causas e seus efeitos. Descobre-se que quem o praticou descuidou de sua responsabilidade ou deixou de perceber que algo, ao longo do caminho, o desviou do objetivo principal. As consequências, quase sempre, deixam sequelas que podem ser danosas ou, em alguns casos, conduzir à descoberta de algo novo, seja sobre o objeto da ação, seja sobre quem a praticou.
Um exemplo amplamente conhecido ocorreu em 1492. Cristóvão Colombo errou ao calcular a distância necessária para chegar às Índias navegando para o oeste. Utilizou medidas inferiores às que os cientistas da época já conheciam sobre o tamanho da Terra. Errou a distância, não encontrou as Índias, mas chegou ao continente americano.
Esse erro obrigou à reconfiguração dos mapas mundiais e comprovou a existência de novas terras até então desconhecidas pelos europeus. Graças a esse equívoco, Colombo entrou para a história como o descobridor da América.
Outro caso emblemático ocorreu em 1956. O engenheiro Wilson Greatbatch, aos 37 anos, tentava desenvolver um equipamento capaz de registrar sons do sistema cardiovascular. Durante um experimento, por engano, utilizou um resistor com especificação diferente da prevista. Para sua surpresa, o circuito passou a emitir impulsos elétricos rítmicos, semelhantes aos batimentos do coração humano. Nascia, assim, o marcapasso cardíaco, invenção que viria a salvar milhões de vidas.
No Judiciário brasileiro também estão registrados inúmeros casos de supostos erros médicos. Em muitos deles, os pacientes acabam suportando as consequências mais graves, enquanto a apuração de responsabilidades nem sempre alcança a transparência esperada.
Uma espessa camada de corporativismo e de cumplicidade, muitas vezes, parece envolver parte desses episódios, que acabam relegados ao esquecimento. Há casos em que vidas foram perdidas precocemente em centros cirúrgicos por falhas médicas. Em outros, órgãos saudáveis foram retirados durante cirurgias em razão de imperícia. São erros que deixam sequelas irreversíveis e, não raro, colocam a vida dos pacientes em risco.
Recentemente circulou pelas redes sociais a imagem de uma radiografia que mostrava uma tesoura de 18 centímetros esquecida no interior do corpo de um paciente. Felizmente, ele sobreviveu.
Como a maioria dos casos envolvendo suspeitas de erro médico é cercada por sigilo durante as investigações ou processos, a sociedade raramente conhece toda a verdade ou as consequências efetivas desses episódios. A transparência, quando se trata de vidas humanas, deveria ser regra, e não exceção.
“O erro humano é inevitável. O que diferencia uma sociedade madura não é a inexistência de erros, mas a disposição de reconhecê-los, investigá-los e aprender com eles. Quando prevalecem o silêncio e a impunidade, o erro deixa de ser um acidente para se transformar em método.”