O jornalista Nelson Rodrigues, também um dos maiores dramaturgos brasileiros, cunhou uma frase lapidar: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”
E é essa massa gigantesca que, uma vez mais, ajudará a eleger o próximo presidente da República. Infelizmente, não há como erguer barreiras eficazes que impeçam essa barbárie que se repete a cada quatro anos.
A partir de maio, como de costume, surgirão campanhas pelo voto, patrocinadas principalmente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), recheadas de palavras de ordem e expressões prontas para consumo, exaltando a importância do voto e da participação popular como pilares dos destinos do país – um país de muitos famintos e doentes e poucos espertos que se valem do dinheiro público.
Discutir a importância do voto, nesses termos, equivale a reacender debates estéreis, como o sexo dos anjos ou o clássico dilema sobre quem veio primeiro: o ovo ou a galinha. Acreditar que apenas o ato de votar ensinará o brasileiro a fazer escolhas acertadas é, no mínimo, ingenuidade.
O voto, ainda obrigatório, serve mais às engrenagens das elites políticas, aos conchavos partidários e à perpetuação de figuras que, há décadas, ocupam assentos nas principais casas legislativas e executivas.
No Brasil, o voto pouco tem representado mudança concreta ou compromisso com propostas que atendam ao interesse coletivo. Tornou-se, em muitos casos, moeda de troca entre detentores de cargos e eleitores dispostos a negociar sua escolha por benefícios imediatos – próteses dentárias, camisas de futebol, gás de cozinha, padrões de energia e outras bugigangas. Uma prática que remonta às origens da colonização, quando o escambo já ditava relações desiguais.
Esse cenário, mais uma vez, tomará conta dos meios de comunicação, com mensagens apresentando o voto como solução quase milagrosa para todos os males nacionais.
Retomando o ponto inicial, se a maioria permanece refém da desinformação ou da apatia, esperar mudanças profundas soa tão fantasioso quanto acreditar em Papai Noel ou no Coelhinho da Páscoa.
O que deveria ser um debate amplo – equilibrando interesses nacionais e demandas locais – foi reduzido a uma disputa partidária medíocre, protagonizada sempre pelos mesmos atores.