O dia em que parei de achar que era sorte

DRIELLI PAOLA

Durante muito tempo, tive dificuldade em reconhecer minhas próprias conquistas. Quando alguma coisa dava certo, eu encontrava uma explicação que não envolvesse exatamente a minha capacidade. Era sorte. Era uma oportunidade que apareceu. Era alguém que acreditou em mim. Era o momento certo. Talvez porque seja mais confortável acreditar que tive sorte do que admitir que, em alguma medida, fui responsável por chegar até ali.

A sorte é uma explicação conveniente. Ela nos poupa da difícil tarefa de olhar para nós mesmos e dizer “eu consegui porque também fiz por merecer”. Não acho que devamos ignorar o acaso. Ele existe. A vida é feita de encontros, circunstâncias e oportunidades que não controlamos. Há portas que se abrem porque alguém decidiu abri-las. Há momentos em que simplesmente estamos no lugar certo.

Mas existe uma diferença entre reconhecer a sorte e atribuir a ela tudo aquilo que construímos. Porque ninguém vê as horas de preparação que existem antes de uma oportunidade. Ninguém vê as inseguranças vencidas em silêncio, os dias em que continuamos mesmo cansados, os erros que nos ensinaram, as vezes em que começamos novamente.

As pessoas costumam enxergar a chegada. Quase nunca enxergam o caminho. E, por vezes, nós mesmos fazemos isso. Olhamos para o resultado e esquecemos de contabilizar tudo aquilo que fizemos para chegar até ele.

Tenho pensado que diminuo minhas próprias conquistas por medo de parecer convencida. Aprendi que reconhecer minhas qualidades pode ser confundido com arrogância. Então me acostumei a dizer “foi sorte”, “foi por acaso”, “qualquer pessoa conseguiria”. Mas será? E se, em vez de modéstia, algumas dessas frases forem apenas uma forma disfarçada de não reconhecer o meu próprio valor?

Existe uma humildade bonita em saber reconhecer os próprios limites. Mas também existe uma humildade verdadeira em reconhecer aquilo que fazemos bem. Não precisamos ser os melhores do mundo. Não precisamos provar nada para ninguém. Precisamos apenas ser honestos conosco.

Eu tive sorte algumas vezes, sim. Tive pessoas que acreditaram em mim. Encontrei oportunidades. Estive em lugares que me ensinaram muito. Recebi ajuda quando precisei. Mas também trabalhei. Estudei. Insisti. Errei. Recomecei. Aguentei dias difíceis. Aprendi a me posicionar. Continuei quando seria mais fácil desistir. E isso também conta.

Talvez tenha sido esse o dia em que parei de achar que era sorte. Não aconteceu diante de um espelho, nem depois de alguma grande revelação. Foi uma percepção silenciosa, olhar para a própria história e finalmente enxergar que havia muito mais esforço ali do que acaso. Foi entender que agradecer pelas oportunidades não significa apagar o próprio mérito.

Hoje, quando algo bom acontece, tento não diminuir a conquista antes mesmo de aproveitá-la. Digo “eu consegui”. E não há arrogância nisso. Há reconhecimento. Porque talvez uma das formas mais bonitas de amadurecer seja aprender a olhar para a própria trajetória com a mesma generosidade com que olhamos para a trajetória de quem admiramos. Celebrar o outro é fácil. Difícil, às vezes, é celebrar a nós mesmos.

Por isso, se um dia você se pegar chamando de sorte tudo aquilo que levou anos para construir, talvez seja hora de olhar novamente para a sua história. Pode ter havido sorte, é verdade. Mas tenho certeza de que houve, também, coragem. Trabalho. Persistência. E uma pessoa que, apesar de tudo, continuou. Não foi apenas sorte. Foi você também.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.

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