Palavra certa

RAPHAEL BLANES

Estava ouvindo a música do Padre Zezinho, Palavra certa, e algumas palavras daquela canção ficaram ecoando em mim. Talvez porque, na correria dos dias, a gente fale demais e escute de menos. A canção diz: Dá-me a palavra certa, na hora certa e do jeito certo e pra pessoa certa. Dá-me a cantiga certa na hora certa e do jeito certo e pra pessoa certa. Palavra é como pedra: precioso sim. Quem sabe o valor cuida bem do que diz. Palavra é como brasa: queima até o fim. Quem sabe o que diz há de ser mais feliz.

Aquilo me fez meditar sobre uma coisa aparentemente simples, mas que talvez seja uma das maiores responsabilidades humanas: o poder da palavra. Palavras podem somar ou diminuir. Podem levantar alguém que já estava no chão ou empurrar ainda mais quem lutava para ficar de pé. Podem pedir perdão, declarar amor, ensinar, consolar, provocar uma reflexão ou simplesmente transformar um dia ruim em um dia suportável.

O que ouvimos também ajuda a contribuir com a percepção que temos de nós mesmos. Uma criança que escuta repetidamente “você não consegue” pode carregar essa frase por muitos anos. Da mesma forma, alguém que ouve “eu acredito em você” pode encontrar força justamente quando acreditava não ter nenhuma.

Desde os antigos pensadores, a linguagem é compreendida como uma das grandes ferramentas que nos tornam humanos. É pela palavra que organizamos pensamentos, transmitimos ideias, construímos relações e também criamos conflitos. Afinal, uma palavra pode construir uma ponte ou levantar um muro e, às vezes, levantamos o muro com tanta convicção que depois passamos anos reclamando que ninguém se aproxima.

Existe um paradoxo curioso: falamos para sermos compreendidos, mas raramente aprendemos a escutar para compreender. E escutar, hoje, é uma habilidade rara muita gente não ouve o outro, apenas espera a vez de falar. Nas redes sociais isso vira epidemia: basta uma manchete para nascer um especialista instantâneo, com opinião formada sobre qualquer assunto. E se alguém discordar da opinião desse especialista de ocasião, melhor ainda: é a chance perfeita de transformar uma conversa de cinco minutos em uma guerra civil.

Reflexão – Talvez maturidade seja compreender que ter razão não nos dá o direito de ferir. Nem toda verdade precisa ser dita de qualquer maneira, em qualquer hora e para qualquer pessoa. Porque palavra não desaparece depois que sai da boca. Ela pode virar memória, ferida, esperança ou caminho. Por isso, antes de falar, talvez valha uma pequena pergunta: Esta é a palavra certa, na hora certa, do jeito certo e para a pessoa certa?

Às vezes, uma palavra bem escolhida pode mudar muito mais do que imaginamos. E, em outras ocasiões, a maior demonstração de sabedoria pode ser simplesmente saber quando calar e escutar.

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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