Consignado CLT atende principalmente trabalhadores de baixa renda

A informação de que cerca de 40% dos trabalhadores que recorrem ao crédito consignado pela CLT estão entre as faixas de menor renda revela muito mais do que o crescimento de uma modalidade de empréstimo. Mostra, sobretudo, a dificuldade de uma parcela significativa dos trabalhadores brasileiros em equilibrar renda e despesas.

Criado em março de 2025, o programa Crédito do Trabalhador ampliou o acesso dos empregados com carteira assinada ao empréstimo com desconto direto em folha. A modalidade já alcançou mais de 9 milhões de trabalhadores e movimentou cerca de R$ 131 bilhões até abril deste ano. O valor médio das operações está próximo de R$ 12,3 mil.

O consignado tem uma vantagem evidente: como as parcelas são descontadas diretamente do salário, o risco para as instituições financeiras é menor e, em tese, os juros também deveriam ser mais baixos. O problema aparece quando o crédito deixa de ser utilizado para uma necessidade pontual e passa a funcionar como complemento permanente da renda.

E é justamente entre os trabalhadores de menor renda que esse risco merece maior atenção. Para quem recebe pouco, qualquer parcela descontada mensalmente representa uma redução importante do dinheiro disponível para alimentação, moradia, transporte e outras despesas básicas.

O próprio governo reconhece que a expansão do consignado precisa ser acompanhada de mecanismos de proteção. Em abril, o Ministério do Trabalho criou regras para tentar conter taxas consideradas elevadas. A taxa média do consignado CLT estava em torno de 3,66% ao mês, mas havia diferenças expressivas entre as instituições financeiras.

Não há dúvida de que facilitar o acesso ao crédito pode ser positivo. O programa também tem um aspecto de inclusão financeira, já que permite ao trabalhador escolher a instituição e comparar as condições oferecidas. O Ministério do Trabalho chegou a destacar justamente a inclusão de trabalhadores de baixa renda entre os efeitos do programa.

Mas crédito barato não significa dinheiro barato. É dinheiro que terá de ser devolvido, com juros, todos os meses.

Por isso, o dado de que uma parcela expressiva dos beneficiários está entre os trabalhadores de menor renda deve servir menos para comemorar a expansão do consignado e mais para acender uma luz amarela. Quando o salário não é suficiente para cobrir as despesas, o empréstimo pode resolver o problema de hoje e criar outro para os meses seguintes.

O desafio, portanto, não é apenas ampliar o acesso ao crédito. É garantir que o trabalhador não precise recorrer a ele para conseguir chegar ao fim do mês. (Da Redação – Foto: Reprodução)