O Cortiço

RAPHAEL BLANES

“A vida é relação.” (Martin Buber)

Toda geração gosta de acreditar que superou o passado. É uma ilusão confortável, quase terapêutica. Aluízio de Azevedo, ao escrever “O Cortiço”, em 1890, não estava apenas descrevendo um casarão decadente na Rua de São Diogo, cercado de barracões amontoados, onde vidas se misturavam sem escolha. Ele estava expondo uma sociedade inteira: a disputa por espaço, a ganância que se disfarça de progresso, o desejo alheio despertando inveja, a força bruta sobrepondo-se à fragilidade.

O cortiço de João Romão, que cresce enquanto seus moradores se afundam na miséria, é retrato de um Brasil que naturaliza a exploração de uns pelo enriquecimento de outros. Em certa passagem, o narrador descreve aquela massa humana que ali se aglomerava “como larvas no esterco” imagem dura, quase insuportável, mas que Azevedo usa de propósito: ele quer que a leitura incomode.

Mais de cem anos depois, cabe perguntar: o cortiço desapareceu ou apenas trocou de endereço, de decoração, de CEP? Ele está nas cidades que crescem sem planejamento, empurrando famílias inteiras para onde ninguém escolhe morar. Está nas relações de trabalho em que a dignidade é negociada por um salário muitas vezes insuficiente. E, se formos honestos e a honestidade nunca foi o forte da nossa espécie, está também dentro de casa, quando o barulho do mundo lá fora entra pela porta e vira briga à mesa, silêncio no jantar, cansaço que vira grito.

Porque o cortiço de Azevedo não era só um prédio: era um jeito de conviver. Pessoas próximas demais fisicamente, mas distantes emocionalmente. Cada um cuidando do seu quintal, fingindo não ver o vizinho que sofre. Repetimos esse padrão sem perceber.

Moramos ao lado de parentes com quem quase não conversamos. Dividimos o mesmo teto com filhos, cônjuges ou pais e, ainda assim, cultivamos distâncias que doem mais do que qualquer parede de taipa. Convenhamos: é mais fácil condenar o egoísmo de João Romão do livro do que reconhecer o nosso, praticado em doses menores e diárias.

A crítica social de Azevedo continua atual porque a raiz do problema não mudou: colocamos o ter acima do ser, o interesse acima do cuidado. Vemos isso em famílias que brigam por herança antes mesmo do luto terminar, em pais tão ocupados sustentando a casa que esquecem de habitá-la com presença, em filhos que crescem sozinhos entre paredes cheias de gente.

Talvez o maior desafio da nossa geração não seja construir cortiços físicos, mas evitar construir cortiços afetivos: lares onde se divide o espaço, mas não se compartilha a vida.

Reflexão – Antes de julgarmos o Brasil ou o local em que vivemos, retratado por Aluízio de Azevedo, vale perguntar: minha própria casa é um lar ou apenas um cortiço bem decorado? A boa literatura não existe para nos consolar, e sim para nos incomodar. Ela nos convida a olhar para fora só para, no fim, nos obrigar a olhar para dentro.

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduado em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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