DRIELLI PAOLA
Enquanto ouvia a canção de Dudu Falcão, conhecida amplamente na voz de Danni Carlos, “Coisas que eu sei”, me peguei em mais um devaneio de uma mente agitada. Fiquei pensando, principalmente, naquele trecho “Coisas que eu sei, são coisas que antes eu somente não sabia, agora eu sei”. E pensei nas coisas que eu não sabia antes, mas aprendi vivendo e sobrevivendo.
Aprendi que, quando alguém atravessa uma dor profunda, a vida nunca mais é exatamente igual. Não porque a pessoa se torne pior, mais fria ou incapaz de ser feliz. Mas porque algumas experiências mudam definitivamente o lugar de onde passamos a enxergar o mundo. Descobri também que algumas pessoas vão nos tratar exatamente da maneira que permitimos. Que limites não são muros, são instruções.
Quando ensinamos alguém que aceitaremos qualquer coisa, algumas pessoas aprendem rapidamente. E talvez seja por isso que, em determinados momentos, dizer “não” seja também uma maneira de ensinar ao outro como queremos ser tratados.
Com o tempo, compreendi que quem realmente nos ama talvez não consiga apagar todas as nossas dores. Mas certamente não fará delas um detalhe sem importância. Há pessoas que não podem nos salvar, mas escolhem não minimizar aquilo que sentimos. E, às vezes, isso já é uma forma profunda de amor.
A vida também me mostrou que, inevitavelmente, aquilo que nos preenche escorre para fora, tingindo o mundo à nossa volta. Quem carrega gentileza costuma oferecê-la. Quem cultiva ternura espalha ternura. O que existe dentro de nós dificilmente permanece apenas nosso. E aquilo que o outro oferece fala muito mais sobre quem ele é do que sobre o nosso valor.
A capacidade de alguém amar, cuidar, permanecer ou reconhecer não determina o quanto somos merecedores dessas coisas.
Aprendi, talvez da maneira mais difícil, que algumas pessoas querem que você se cure, desde que a sua cura não as incomode. Desde que ela não faça você estabelecer limites, ir embora ou deixar de aceitar aquilo que antes aceitava. Talvez porque seja muito mais confortável conviver com alguém ferido, mas disponível, do que com alguém inteiro e consciente do próprio valor.
Hoje sei que a vida não é sobre manter tudo para sempre, mas sobre reconhecer o valor do que passou pela gente. Algumas coisas não foram feitas para durar. Foram feitas para acontecer. E isso não as torna menos importantes.
Também entendi que nem toda porta que a gente empurra precisa, de fato, se abrir. Às vezes, insistimos porque confundimos persistência com destino. Há portas fechadas que não são rejeições, são proteção, livramento. E, quando finalmente soltamos o que pesa, nossas mãos ficam livres para segurar aquilo que realmente floresce. Há coisas que só conseguimos receber depois que paramos de carregar o que já terminou.
E o amor, hoje eu sei, nunca foi sobre garantias. Amar é também ter coragem para tentar outra vez, mesmo depois de descobrir que algumas histórias terminam, que algumas pessoas ferem e que nem todo sentimento permanece. É permitir que alguém se aproxime depois de ter aprendido a construir muros. É abrir novamente as mãos, mesmo sabendo que elas podem voltar a doer. Porque amar de novo não significa esquecer o que nos feriu. Significa acreditar que aquilo que nos aconteceu não precisa decidir tudo o que ainda pode nos acontecer.
E, talvez, a maior coisa que eu aprendi é que somos aquilo que fomos e tudo aquilo que o mundo acrescentou a nós. Somos os amores que nos atravessaram, as perdas que nos modificaram, as dores que nos ensinaram e as escolhas que nos devolveram a nós mesmos.
No fim, a vida é feita de coisas que um dia nos eram desconhecidas e que, depois de nos marcarem, passam a fazer parte de quem somos.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.