Quando eu estiver bem velhinho

Há quem pense que envelhecer é apenas o corpo perdendo o fôlego e o passo ficando lento. Talvez seja o olhar cansado das repetições. Me considero jovial, mas em tanta coisa já me sinto um velho e aprendi que há no envelhecer um segredo de sabedoria que o tempo vai revelando aos poucos. É como quem abre uma janela antiga e deixa o vento entrar.
A velhice talvez seja mesmo a mais silenciosa das revoluções humanas. Nela, o barulho das urgências se cala, e o que antes parecia importante, se mostra apenas detalhe.
Ando feliz de ter aprendido a respirar e desligar o alarme dessas urgências, como fazem os pilotos nas cabines das aeronaves quando precisam administrar alguma pane. De uma hora para outra a gente se cansa de correr e simplesmente começa a caminhar com calma. Se você não me conhece, caro leitor, não me imagine alguém de cabelinhos brancos.
Estou apenas com um pouco mais de quarenta e simplesmente entendi que o mundo não precisa mais ser conquistado, mas apenas compreendido. A subversão da velhice está em inverter a lógica da pressa e deixar de acumular para começar a esvaziar. Deixar de buscar respostas para aprender a conviver com o mistério e ainda aceitar que há o que seja mistério para a vida toda.
Hoje em dia o tempo já é menos inimigo e tem se tornado companheiro. Eu sei! Não estou e nem me sinto velho, mas já ouço o silêncio na certeza que bem feito, vale mais que uma palavra bendita. Quando se acumularem muitas rugas, saberei a tempo que ser velho não é fraqueza, mas um gesto de ternura com a própria finitude.
Vai chegar minha vez de perceber que falta menos estrada a frente do que as curvas que já ficaram para trás. Parece que a gente vai aceitando isso e se orgulhando do peso das medalhas invisíveis. Quando eu estiver velhinho, serei corajoso para aceitar essa realidade. Envelhecer é um ato de coragem. É subversivo porque vai na contramão, já que há quem realmente acredite que o único lugar possível para a alegria está na juventude. Alegrias antigas também trazem brilho e essa alegria de quem não precisa mais provar nada é genuína e traz paz ao mundo.
Há liberdade em soltar as amarras do tempo e começar a habitar uma nova casa interior mais ampla, mais silenciosa e cheia de pequenos detalhes. A coisa toda é bem suave, pois não grita, apenas vive e o faz com humor. E olha: eu ando leve e irônico. Ando rindo dos dramas da juventude ao meu redor e me vejo neles sabendo que nada mais é, que um ensaio para o riso maduro que pode durar somente um dia.
Se já envelheci bastante não sei, mas pode ter certeza que prefiro deixar de vencer e estar em paz. Serve para as discussões e para as vaidades. Que se matem! Meu silêncio é minha forma de demostrar minha rara e profunda rebeldia.
Eu não quero me preparar para partir. Quero tão somente viver da melhor maneira possível até quando puder. Desta forma continuarei no coração de quem ficar. Quem ficar, um dia vai lamentar minha ausência e sentirá tanta saudade que o peito lhe trará uma dor física e indizível. Dado que nunca sabemos quando o caminho estiver quase no fim, então é bobagem esquentar a cabeça agora.

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

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