Você reconhece esse cenário?

DRIELLI PAOLA

Começaram com listas. Nomes de estabelecimentos, profissionais e pessoas passaram a circular, acompanhados de recomendações para que ninguém comprasse ali, contratasse seus serviços ou mantivesse relações com quem estivesse associado às ideias consideradas indesejáveis. A justificativa era política. Bastava uma suspeita, uma declaração ou uma suposta preferência para que alguém se tornasse alvo de exposição pública.

Aos poucos, o desacordo deixou de ser apenas uma questão de opinião. Vieram as intimidações, as ameaças, a pressão sobre comerciantes e a tentativa de convencer a sociedade de que determinadas pessoas não mereciam a mesma consideração que as demais.

Alguns grupos foram transformados em inimigos. Comunistas passaram a ser tratados como ameaças à nação. Judeus foram responsabilizados por problemas econômicos e sociais. Mulheres que defendiam autonomia e igualdade eram vistas como subversivas, desviantes e uma ameaça aos valores tradicionais. Aquelas que questionavam a autoridade masculina ou reivindicavam liberdade para decidir sobre a própria vida eram desqualificadas, reprimidas e tiveram seus espaços de organização dissolvidos ou controlados pelo regime. Pessoas com deficiência foram classificadas como um peso para a sociedade. Homens homossexuais foram perseguidos, presos e enviados a campos de concentração, identificados, em muitos casos, pelo triângulo rosa. Livros foram queimados, associações dissolvidas e vozes discordantes silenciadas.

Em nome da ordem, da segurança e de um suposto bem coletivo, direitos começaram a desaparecer. Em 1933, Hitler chegou ao poder na Alemanha.

Após o incêndio do Parlamento, direitos fundamentais foram suspensos e, em março, a Lei de Plenos Poderes permitiu ao governo legislar sem o Parlamento. Em 1º de abril, estabelecimentos judaicos foram alvo de um boicote nacional organizado pelos nazistas. Naquele ano, opositores foram presos, organizações dissolvidas e livros queimados. Uma lei também autorizou a esterilização compulsória de pessoas consideradas portadoras de doenças hereditárias, atingindo cerca de 400 mil pessoas.

Na Itália, Mussolini consolidou sua ditadura fascista, iniciada em 1922. Em 1938, instituiu leis antissemitas que excluíram judeus de escolas e profissões.

A exaltação da nação, da tradição e da família também sustentava modelos rígidos de comportamento. Em nome de “Deus, Pátria e Família”, lema associado aos movimentos fascistas e integralistas, defendiam-se a obediência, o nacionalismo e uma ideia rígida de família e sociedade. Sob essas palavras, apresentavam-se como virtudes a submissão, a intolerância e a exclusão de quem não se encaixava naquele modelo. Entre essas medidas, havia discursos, justificativas e pessoas convencidas de que tudo era necessário. Muitos apoiaram ou aceitaram a exclusão de determinados grupos.

É tentador atribuir acontecimentos assim exclusivamente a líderes cruéis. Mas regimes autoritários também se sustentam quando a perseguição é relativizada e a dignidade humana passa a depender das opiniões ou da identidade de alguém. Isso não significa que todo boicote seja autoritário ou que situações atuais sejam equivalentes ao nazismo. Significa que a História nos oferece referências para observar listas destinadas a constranger, campanhas de intimidação e discursos que transformam adversários em inimigos.

Agora, querida pessoa, releia o início desta carta. Você reconheceu alguma coisa? Pensou em um passado distante ou em acontecimentos recentes? Talvez tenha identificado comportamentos que já presenciou, listas que já circularam ou discursos que já ouviu.

A História não se repete exatamente da mesma maneira, mas certos mecanismos atravessam o tempo, como a criação de inimigos, a intolerância disfarçada de patriotismo e a exclusão justificada em nome de valores supostamente superiores.

Reconhecer esses sinais não é confundir épocas, mas compreender que a liberdade exige vigilância, sobretudo quando a dignidade do outro começa a ser negociável.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.

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