Sopinha de pão no café com leite

Um pãozinho de ontem, picado o miolo e mergulhado no café com leite pode contar uma grande história. Dessas que a gente guarda na retina até o dia em que não for mais possível ficar aqui. Não há ninguém que eu tenha conhecido na vida, principalmente nos últimos anos, que seja interessante de verdade e que não tenha passado por uma situação de limite.

Impressionante que humanamente a gente tenha mesmo que chegar numa condição de estar por um fio, para aprender muito sobre o que te fato tem valor nesta existência.

O obeso, após chegar aos cento e cinquenta quilos, se vê com uma sentença médica de morte e nesse momento, resolve que é hora de mudar de vida e cuidar da saúde. Só aí então, o milagre começa a acontecer. Em poucos meses, dezenas de quilos perdidos e a possibilidade de mais alguns anos para conviver com filhos e netos.

Um alcoólatra se vê perdendo o amor da esposa e o respeito dos filhos e só no fundo do poço é que cava em si as razões afetivas capazes de mexer com sua vontade mais íntima e na capacidade de não levar mais a boca um copo de cachaça.

Mas falo dos outros limites, aqueles que a idade impõe e que depois de tanto caminhar, a tal sopinha de pão no café com leite tem o sabor de uma vida inteira. E quando os olhos não são capazes de ver, certamente o sabor é multiplicado por dez. O choro muitas vezes pode esconder uma consciência pesada de quem no fundo fica desconfortável e sabe que está devendo. No meu caso é de tristeza por não fazer nada mais que colocar o leite com o café na caneca e fazer dela a taça da dignidade, até quando Deus permitir.

 

 Luís Alberto de Moraes tem formação em Letras, leciona há quase vinte anos e prepara o lançamento de um livro de crônicas e poemas. @luis.alb