Porque se chamavam sonhos

Não por acaso o título foi escolhido nessa semana, onde claro, a partida de Lô Borges repercute menos que a guerra de narrativas e politização do que houve no Rio de Janeiro. Eu prefiro ficar em Minas, onde há um céu estrelado que parece dizer e repetir sem se cansar: “sonhos não envelhecem”. Descobrimos que é possível revolucionar a música sem gritar.
Um violão, amigos e coragem bastam. O Clube da Esquina é onde para sempre moram a poesia e a esperança. Amizades de verdade nascem assim: como se as pessoas se reconhecessem. Foi assim com aqueles meninos dos anos setenta. Falar de uma janela lateral hoje é como visualizar uma luz acesa em tempos escuros.
Lô Borges é um dos grandes nomes da música brasileira. Ele e seus amigos transformaram o bairro de Santa Teresa e Lô contava que aos três anos de idade, já tinha superado a certeza da morte. Quando ele e o irmão descobriram que todos morreriam, choraram muito, mas se conformaram, pois em Minas a gente aprende cedo que a simplicidade desarma e amizade vira escola, além de talento e coragem caberem em uma esquina.
A gente pode mesmo revolucionar com um violão velho e ganhar milhares de corações apenas com poesia e amigos por perto. Ele partiu e a música ficou em nós. Vendo as imagens e cantoria dessa semana naquela esquina entoando em coro: “um girassol da cor do seu cabelo” e as velas acesas e a alegria; me deu vontade de querer fazer algo nessa vida que de tão bonito me permita também continuar em alguém. A gente segue reproduzindo, crendo e cantando os sonhos, porque esses, não envelhecem!
A morte, quando encontra um artista, não sabe direito o que fazer. Porque ele deixa a própria voz espalhada no ar, gravada na memória dos que ouviram. Lô Borges atravessou para o lado onde os sonhos continuam compondo e rindo de alguma lembrança de quando era um menino que ao invés de armas, portava um velho violão. E talvez seja isso o que nos salva: essa teimosia bonita de sonhar.
Mesmo quando tudo parece ruir, a gente insiste em acreditar que vale a pena ser bom, ter amigos, cantar baixinho e olhar o céu. Porque quem aprendeu, sabe que esperança é também uma forma de arte.
E no meio de tantas canções que ficaram, há uma que parece conter o próprio sentido da vida: “Quem sabe isso quer dizer amor”. Nela, tudo é suave e profundo, como se o tempo parasse para ouvir o coração falar. É uma prece disfarçada de melodia, um convite a acreditar que o amor é mesmo o centro de tudo.
Cada acorde dessa canção parece abrir uma janela dentro da gente, lembrando que amar é entender o silêncio, é reconhecer o outro como extensão do próprio existir. E quando ela toca, até quem não viveu o Clube da Esquina sente que alguma coisa desperta lá no fundo, dizendo baixinho que ainda há beleza, que ainda há ternura e que, sim, isso quer dizer amor.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

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