Para uma vida feliz

Há uma tentação moderna de medir a vida pelo extraordinário, seja pelas viagens raras, pela necessidade de aplauso, pelas conquistas que que precisam mesmo ser expostas. No entanto, há uma antiga e persistente verdade que resiste a essa lógica: a de que o essencial quase sempre se esconde no comum. É nesse espírito que me inspirei essa semana, lendo o que escreveu Chesterton ao afirmar que a coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, com uma família comum e filhos comuns.

De cara, a frase pode parecer algo medíocre, mas não é! Em casa vendo as minhas riquezas acumuladas, percebo logo que homem inteiro é aquele que constrói todos os seus dias com gestos pequenos e repetidos, uma vida que não depende de aplauso para ter valor.

Existe uma grandeza no cotidiano que é discreta. Justamente aquela do pai e da mãe que acordam para garantir seu sustento e garantem a transformação da rotina dos filhos através do cuidado recheado de risos e desentendimentos, aprendendo, pouco a pouco, o difícil ofício de viver.

Nada disso parece extraordinário quando visto de fora. E, no entanto, é justamente aí que reside o milagre.

A gente parece ter necessidade de ver os extraordinários, e talvez o problema esteja no nosso olhar, viciado em buscar o raro e o distante. Esquecemos que aquilo que realmente sustenta o mundo não são os feitos excepcionais, mas as fidelidades anônimas. Não são os grandes eventos, mas os pequenos compromissos cumpridos em silêncio.

Aprendi que não há paraíso maior do que um lar construído ao lado de quem amamos. Não se trata de idealizar a vida doméstica que, como toda vida, é feita de imperfeições, conflitos e cansaço. Trata-se de reconhecer que é nesse espaço, aparentemente banal e que descortina o drama mais profundo da existência humana: o de amar e ser amado apesar de tudo.

O lar é o lugar onde a vida deixa de ser teoria e se torna prática. Onde as virtudes deixam de ser palavras bonitas e passam a exigir paciência, renúncia e perdão. É ali que o extraordinário acontece sem muito barulho: na reconciliação depois da briga, na mesa compartilhada, no silêncio confortável de quem não precisa provar nada a ninguém.

Chesterton, que por sinal é um nome bem bonito, deve ter sido alguém bem irônico e essa semana relembra a mim e a você, caro leitor, que a felicidade não está necessariamente naquilo que falta, mas naquilo que já temos e não percebemos. O homem comum, com sua família comum, vive cercado de uma riqueza que não se mede em números nem em prestígio, mas em presença, em vínculos e sentido.

Se ser famoso pode parecer melhor, ando respirando os sinais de que bom mesmo é ser importante e que o verdadeiro extraordinário é justamente isso: uma vida que, aos olhos do mundo, não tem nada de especial, mas que, por dentro, é inteira, viva e verdade.

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

 

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