Há coisas que só o futebol consegue fazer com o tempo. Uma delas é unir pessoas, encurtar memórias e transformar quatro anos em um simples intervalo de conversa. Não é que já estão até pintando as guias de verde e amarelo e que estamos novamente falando em Copa do Mundo. Outro dia mesmo estávamos sofrendo naquele dezembro de 2022, em pleno calor brasileiro, tentando entender uma Copa disputada perto do Natal, cercada por polêmicas, horários estranhos e a velha esperança do hexa guardada no peito. Acabou em título portenho. Uma tristeza em dobro, diga-se de passagem.
Talvez por isso a próxima Copa tenha chegado tão depressa. A sensação é de que nem deu tempo de esquecer a última. Quando percebemos, já estamos discutindo a convocação, analisando tabela, calculando adversários e retomando aquele velho hábito nacional de acreditar, desacreditar e acreditar outra vez. Eu sempre acredito e não estou nem aí para a opinião dos pessimistas.
A Copa desta vez será fantástica. Será a maior de todas. Mais seleções, mais jogos, mais países e mais histórias espalhadas pelo planeta. O futebol transformado numa espécie de Olimpíada da paixão popular. Haverá quem reclame do excesso. Sempre há, mas o mundo gosta de Copa justamente porque ela interrompe a normalidade da vida. Durante um mês, o padeiro vira comentarista, o taxista assume função de técnico e até quem diz não gostar de futebol acaba perguntando o horário do jogo.
O brasileiro também parece ter reencontrado uma emoção antiga com a convocação de Neymar. Bastou o nome aparecer novamente para parte do país reacender uma esperança quase infantil. Neymar é daqueles personagens que nunca passam despercebidos. Amado por uns, criticado por outros, mas impossível de ignorar e Copa do Mundo gosta disso. Gosta de personagens carregados de drama, talento e expectativa. Curiosamente, mais uma vez a Seleção Brasileira chega cercada de desconfiança. E talvez isso seja um bom sinal.
O torcedor brasileiro, quando se empolga demais antes da hora, costuma sofrer depois. Mas quando a seleção desembarca desacreditada, meio torta, questionada pela imprensa e observada com desconfiança pelos próprios brasileiros, algo diferente parece acontecer. Foi assim em 1994. Eu vi. Havia uma enorme desconfiança sobre aquele time pragmático, criticado por jogar “sem encanto”. Diziam que faltava brilho, que sobrava cautela. No fim, Romário sorriu para o mundo e o Brasil voltou a ser campeão depois de vinte e quatro anos.
Também foi assim em 2002. A seleção vinha de eliminatórias ruins, acumulava críticas e carregava um técnico contestado. Tanta desconfiança até sobre Ronaldo, voltando das lesões, quase desacreditado pelo futebol mundial. E todos sabem como terminou aquela história. O corte de cabelo eternizou o nosso cascão. O pentacampeonato também.
Talvez exista uma força misteriosa na dúvida. O futebol brasileiro, quando perde o favoritismo absoluto, parece reencontrar humildade, concentração e fome. Como aquele lutador que entra no ringue sem promessa de espetáculo, mas decidido a vencer. Ainda falta tempo. Haverá lesões, debates inúteis em programas esportivos, estatísticas inventadas e especialistas mudando de opinião a cada amistoso. Faz parte do ritual. Copa do Mundo não começa no apito inicial. Ela começa muito antes, nas mesas de bar, nas conversas de esquina e no coração do torcedor.
E não importa quantas tecnologias existam, quantos aplicativos analisem desempenho ou quantos comentaristas tentem prever o futuro. Quando a bola rola na Copa, o futebol continua sendo uma das últimas grandes fábricas de impossíveis do planeta. Talvez por isso o mundo pare para assistir. Talvez por isso o tempo voe tão depressa entre uma Copa e outra. Ou talvez porque, no fundo, o ser humano precise de tempos em tempos acreditar novamente em alguma coisa.
Eu acredito no Hexa e não vou sair da frente da televisão até poder gritar e me emocionar com essa alegria. Acreditarei até o último minuto.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”