Maio trouxe um friozinho que me tirou o humor nessa semana. Detesto frio, como leitor já sabe e já leu minhas reclamações. No entanto, um mês bastante especial e tingido de amarelo. Quantas pessoas conheci que perderam suas vidas por acidente de automóvel ou motocicleta. O trânsito continua matando e apresentando números inaceitáveis.
A cor amarela que deveria ser apenas a cor da atenção tornou-se, há muito tempo, a cor do luto silencioso espalhado pelas ruas, avenidas e rodovias brasileiras. O chamado “Maio Amarelo” não nasceu como uma campanha decorativa, feita para ocupar repartições públicas com laços e cartazes. Nasceu
Os números são assustadores. Somente nas rodovias federais, o Brasil registrou, em 2025, mais de 72 mil sinistros de trânsito, deixando mais de 6 mil mortos e cerca de 83 mil feridos. Isso representa uma média cruel de aproximadamente 16 vidas perdidas por dia. Incompatível, caro leitor com qualquer ideia aceitável de civilidade.
O mais inquietante é perceber que a maior parte dessas tragédias não nasce do acaso. O trânsito raramente é fatalidade. Ele costuma ser consequência.
Consequência da imprudência, da pressa, do celular ao volante, da bebida misturada com direção, da ultrapassagem arrogante, do motociclista invisível aos olhos apressados de quem dirige sem responsabilidade e claro, também do pedestre ignorado, o ciclista tratado como obstáculo e a perigosa sensação de que “comigo nunca acontecerá”.
Hoje mesmo, pouco antes de ter a ideia de escrever esse texto, quase que me deixei vencer pela preguiça de caminhar até uma faixa de pedestres e já ia passando para o outro lado do modo errado. A minha consciência felizmente não permitiu!
Em cidades como Mairiporã, as obras feitas nos últimos anos desafogaram bem a região central que era bastante crítica, mas a proximidade com a capital paulista faz com que as cidades da região metropolitana a cada ano aumentem o fluxo de veículos. Eu também sou motociclista e sei que há muitos por ai e dividir o espaço com os carros, transforma o trânsito local em um espaço cada vez mais vulnerável.
A realidade das cidades paulistas acompanha o alerta estadual: os motociclistas seguem entre as maiores vítimas dos acidentes fatais, enquanto a violência viária continua ocupando hospitais, destruindo famílias e deixando sequelas permanentes.
Existe algo profundamente triste no modo como a sociedade aprendeu a conviver com essas perdas. Quando um avião cai, o país inteiro se comove. Quando dezenas morrem nas estradas em um feriado prolongado, a notícia dura poucas horas. A tragédia do trânsito tornou-se repetição. E talvez seja justamente essa repetição que mais assuste.
O Maio Amarelo foi lembrado pela Secretaria de Segurança de Mairiporã e o deste ano traz um tema simples, mas poderoso: “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. Parece óbvio. E é justamente por isso que deveria ser levado tão a sério. O trânsito não é composto apenas por veículos. É composto por pessoas. Há alguém esperando em casa por cada motociclista que sai para trabalhar. Há uma família inteira dentro de cada carro. Há sonhos atravessando faixas de pedestres. Falta-nos, talvez, menos habilidade ao volante e mais consciência humana.
Nenhuma mensagem no celular, nenhum minuto economizado justifica uma ultrapassagem irresponsável. Nenhuma comemoração merece terminar em sirenes, hospitais e funerais. O trânsito é um retrato daquilo que somos enquanto sociedade. E quando ele se torna violento, impaciente e indiferente, revela também o quanto estamos falhando em enxergar o próximo.
Tomara que o amarelo deste mês não seja apenas símbolo. Que seja alerta. Porque a próxima vítima do trânsito nunca é apenas um número.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”