Indigestão

Há sempre que se cuidar do que consumimos. E não me refiro apenas àquilo que se coloca à mesa, servido em pratos e saindo fumaça, acompanhado de talheres e guardanapos. Hoje, caro leitor, quero falar de outra fome e de outros alimentos, aqueles que interferem compacidade de alimentar ou adoecer a alma. Pois é, o mundo também cozinha seus pratos. E alguns deles chegam até nós já estragados.

Há dias em que a vida nos serve porções generosas de ingratidão. Você ajuda, estende a mão, empresta tempo, atenção, paciência e carinho, para mesmo assim, muitos se ausentarem. Resolve problemas que não eram seus, carrega pesos que pertenciam a outros ombros e, ainda assim, continua caminhando. Mas basta um único “não”. Apenas um. Um instante em que você decide não poder, não conseguir ou simplesmente não querer. E aquilo que antes era reconhecimento transforma-se em cobrança. O apreço vira silêncio. O abraço se converte em distância.

É impressionante como algumas pessoas confundem bondade com obrigação. Talvez porque o ser humano tenha se acostumado a contabilizar favores como quem soma moedas. Há quem ajude já esperando o recibo da eterna gratidão. Há quem ame querendo posse. Há quem esteja ao lado apenas enquanto for conveniente permanecer. E assim, sem perceber, vamos sendo convidados a consumir sentimentos vencidos, deteriorados pelo egoísmo e pela superficialidade.

Também nos servem a indiferença. Essa talvez seja uma das refeições mais frias da existência. A indiferença não grita, não quebra portas, não faz escândalo. Ela apenas esvazia. É o olhar que atravessa sem enxergar. É a mensagem ignorada. É o gesto que não encontra reciprocidade. É perceber que, para alguns, nossa presença jamais fez diferença verdadeira. E poucas coisas são tão silenciosamente cruéis quanto sentir-se invisível diante de quem um dia nos enxergou com importância.

No tempero desses tempos modernos, lembro ainda dessa porcaria da inveja: esse veneno discreto que raramente se assume pelo nome. A inveja sorri enquanto observa. Aplaude sem entusiasmo. Cumprimenta enquanto torce pelo tropeço do outro. Ela não suporta ver florescer aquilo que não conseguiu cultivar. E talvez por isso tanta gente se incomode com a felicidade simples dos outros. Não suportam ver alguém vencendo sem precisar destruir ninguém no caminho. Há pessoas que preferem a companhia de quem está caído, porque o brilho alheio evidencia a própria escuridão.

E claro, vamos de sobremesa: A vaidade! Doce no início, amarga depois. Vivemos tempos em que muitos estão mais preocupados em parecer do que em ser. Importa mais a fotografia do que o sentimento vivido. Mais a aprovação do público do que a paz da consciência. As relações são somente vitrines. As dores ganharam filtros. E até a felicidade parece precisar de plateia para existir. Há quem passe a vida inteira maquiando aparências, sem nunca encontrar coragem para encarar a própria verdade diante do espelho.

Tudo bem até aí se alma também não sofresse indigestão.  Quando não cuidamos do que absorvemos emocionalmente, adoecemos aos poucos. Primeiro vem o cansaço sem explicação. Depois a falta de esperança. Em seguida, a desconfiança em tudo e em todos. A gente continua sorrindo nas fotografias, trabalhando normalmente, cumprindo compromissos…, mas por dentro já não encontra espaço para respirar em paz. Porque no fim das contas, aquilo que alimenta a alma também determina a força que teremos para continuar vivendo.

 

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

 

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