Há uma ideia que, à primeira vista, parece desconfortável, mas que carrega em si uma profunda verdade sobre a condição humana: é preciso errar para que os acertos, enfim, cheguem. Não se trata de enaltecer o equívoco nem de fazer do fracasso um ideal, mas de compreender que o caminho até qualquer forma de excelência é inevitavelmente pavimentado por tentativas imperfeitas. O erro, quando assimilado com consciência, deixa de ser um obstáculo e passa a ser instrumento.
Pensemos no corredor. A imagem que se cristaliza é a do atleta que cruza a linha de chegada com segurança, ritmo e confiança. No entanto, essa cena é apenas o capítulo final de uma longa trajetória. Antes dela, houve quedas, houve dores musculares que pareciam não ter fim, houve tempos altos que desanimavam até os mais persistentes. Houve dias em que o corpo não respondia e outros em que a mente insistia em desistir.
Ainda assim, a repetição disciplinada, aliada à capacidade de aprender com cada falha, moldou não apenas o desempenho físico, mas também o caráter. O corredor que vence não é aquele que nunca caiu, mas aquele que soube se levantar melhor a cada tombo.
Na mesma linha, encontramos o piloto. A destreza com que hoje conduz seu veículo pelas curvas mais desafiadoras é fruto de inúmeros erros acumulados ao longo do tempo. Motores foram danificados, estratégias falharam, decisões equivocadas custaram posições preciosas. Cada falha, entretanto, deixou um aprendizado. Cada curva mal feita ensinou a melhor trajetória.
A pista, que antes impunha respeito, tornou-se território conhecido. A vitória, quando veio, não foi um acaso, mas a consequência lógica de um processo repleto de tentativas, ajustes e recomeços.
Se a gente amplia o olhar, percebe que esse padrão se repete em diversas áreas. Na arte, a obra que emociona nasce de esboços descartados, de ideias que não funcionaram, de experimentações que pareciam inúteis à primeira vista. No campo da ciência, grandes descobertas foram precedidas por hipóteses equivocadas, por experimentos que não produziram os resultados esperados. A história do conhecimento humano é, em grande medida, a história de erros que abriram caminho para acertos transformadores.
Até mesmo na vida cotidiana, essa lógica se impõe. Decisões mal tomadas, caminhos que se mostram inadequados, escolhas que exigem revisão. Tudo isso compõe a formação de quem somos.
O amadurecimento não ocorre em linha reta. Ele se constrói em meio a desvios, revisões e aprendizados silenciosos. Cada erro, quando refletido, acrescenta uma camada de entendimento que dificilmente seria alcançada apenas pelo acerto.
A filosofia, ao longo dos séculos, já nos ofereceu pistas valiosas sobre essa dinâmica. Quando se afirma que a experiência é o nome que damos aos nossos erros, não se está fazendo uma concessão ao fracasso, mas reconhecendo o seu papel formador. Do mesmo modo, ao lembrar que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, entende-se que tanto o indivíduo quanto as circunstâncias estão em constante transformação. O erro de ontem não tem o poder de aprisionar o acerto de amanhã, justamente porque já não somos os mesmos de antes. Tão ruim quando alguém me diz que não se arrepende de nada.
Eu me arrependi e me arrependo sempre. Pudesse voltar, mudaria muita coisa, inevitavelmente. Sei é claro, que tudo coopera para o bem. Essas minhas marcas e essa reflexão de hoje, claro leitor, já são sinais do mês de maio que se aproxima trazendo para perto mais uma primavera.
Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”