Fernão Dias chega aos 65 anos pedindo uma nova transformação

A rodovia Fernão Dias, que liga duas das principais capitais do País, São Paulo e Belo Horizonte, foi inaugurada em sua totalidade em julho de 1961. Neste mês, completa 65 anos e, mesmo duplicada no início dos anos 2000, ainda necessita de uma terceira faixa em cada sentido, indispensável para dar vazão ao crescente número de veículos que circulam diariamente pela BR-381.

Segundo estimativas e projeções divulgadas em dezembro do ano passado, aproximadamente 250 mil veículos trafegam diariamente pela Fernão Dias. Trata-se da segunda rodovia federal com maior volume de tráfego do Brasil, responsável pelo escoamento de cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional entre São Paulo e Minas Gerais.

A rodovia foi inaugurada inicialmente, em 1959, apenas no trecho localizado em Minas Gerais, pelo então presidente Juscelino Kubitschek. A conclusão dos seus 562,1 quilômetros ocorreu em 1961. A Fernão Dias tem início em Guarulhos (SP) e termina em Contagem (MG).

Uma pista – Durante mais de 40 anos, a Fernão Dias teve apenas pista simples, o que dificultou o desenvolvimento econômico – industrial, comercial e de serviços – não apenas das duas capitais, mas também das dezenas de cidades localizadas ao longo de sua extensão.

Com o aumento constante do tráfego, os principais problemas eram a falta de manutenção da pista de rolamento, tomada por buracos, e as precárias condições dos acostamentos. Milhares de motoristas tiveram seus veículos danificados ao enfrentar a buraqueira, sem contar o excessivo tempo gasto nos deslocamentos. Como exemplo, uma viagem entre Bragança Paulista e São Paulo levava, no mínimo, duas horas e meia. Hoje, o mesmo percurso é realizado em cerca de 50 minutos.

Reportagens da grande imprensa e de jornais das cidades cortadas pela BR-381 cobravam providências das autoridades. No entanto, os anos se passaram e somente no início deste século o Governo Federal decidiu enfrentar o problema.

Duplicação – A construção da segunda pista, em ambos os sentidos da rodovia, exigiu paciência dos usuários e consumiu elevados recursos públicos. As obras sofreram diversas paralisações em razão da desistência de empreiteiras que haviam vencido as licitações.

Os trabalhos se estenderam de 1993 até a entrega oficial, em 2005, e, ainda assim, com diversos serviços inacabados, como passarelas, viadutos, pintura de solo, iluminação e sinalização.

À época, muitas avaliações convergiam para a mesma conclusão: o novo traçado não foi a melhor escolha. Isso levou à paralisação de obras para recuperação de trechos que apresentaram desmoronamentos, principalmente em razão de minas d’água que desciam pelas encostas e não foram identificadas durante a construção. A engenharia ficou aquém do que se esperava de uma rodovia moderna, compatível com a importância da ligação entre duas das maiores capitais brasileiras.

Concessão – A concessão da BR-381 à iniciativa privada surgiu como a melhor alternativa para garantir sua administração e manutenção. Durante décadas, o Governo Federal mostrou-se omisso e incapaz de gerir adequadamente a malha rodoviária sob sua responsabilidade.

A vencedora da licitação, realizada em 14 de fevereiro de 2008, foi a OHL, empresa que posteriormente passou a se chamar Arteris.

Para os moradores de Mairiporã, porém, a concessão trouxe um custo adicional ao orçamento familiar: a cobrança da tarifa de pedágio, já que uma das duas praças existentes no Estado de São Paulo foi instalada justamente no município.

Mudança – Alvo de críticas dos governos municipais atendidos pela rodovia, a Arteris acabou derrotada no novo leilão promovido pelo Governo Federal no ano passado. Em seu lugar assumiu a Motiva, trazendo um amplo pacote de promessas de modernização da estrada e anunciando bilhões de reais em investimentos.

Seis décadas e meia após sua conclusão, a Fernão Dias volta a enfrentar problemas semelhantes aos das primeiras quatro décadas de existência. Mesmo duplicada, tornou-se uma rodovia obsoleta, incapaz de suportar o atual volume de veículos e de oferecer condições compatíveis com sua importância para o País.

Resta agora a expectativa de que a nova concessionária consiga transformar, ao menos em parte, as promessas em realidade. (Wagner Azevedo/CJ – Fotos: Reprodução/Correio Imagem/Arteris—Divulgação)

Trecho de serra na Fernão Dias, entre Mairiporã e São Paulo, anos 1960 (Reprodução)

Antigo túnel Mata Fria, localizado em Mairiporã, pista de mão dupla (Correio Imagem)

Fernão Dias hoje, com elevado número de problemas em suas pistas (Arteris/Divulgação)