Só mesmo em um país como o Brasil o cidadão se vê inserido em um verdadeiro filme de bangue-bangue, em que os protagonistas – os três Poderes da República -, longe de atuarem em harmonia pelo bem comum, protagonizam tiroteios constantes. E não se trata apenas de embates institucionais: são ataques verbais, trocas de acusações e insultos que expõem, de forma constrangedora, uma Nação à deriva.
A desordem institucional que se instalou entre Supremo Tribunal Federal, Congresso Nacional e Palácio do Planalto alimenta uma crescente descrença da população em tudo e em todos. A cada dia surgem novos escândalos, cujas consequências recaem, como sempre, sobre o contribuinte – seja na forma de impostos, inflação ou deterioração dos serviços públicos.
Nem mesmo aqueles que deveriam representar o último bastião da Justiça e da Constituição escapam das suspeitas. O STF, frequentemente alçado à condição de guardião da ordem democrática, também se vê envolvido, direta ou indiretamente, em episódios que levantam dúvidas e abalam a confiança popular. A sensação é de que não há mais instância imune às práticas que, ao longo dos anos, corroeram os cofres públicos e penalizaram especialmente os mais vulneráveis, como aposentados e trabalhadores.
Sem horizonte claro, o povo assiste, atônito, a um embate interminável entre os Poderes, enquanto enfrenta um custo de vida que sobe de forma contínua. Alimentação, transporte, moradia – tudo pesa cada vez mais no bolso. E, diante desse cenário, resta a pergunta inevitável: há para onde correr?
A crença de que as eleições de outubro possam representar a solução para todos esses males encontra, compreensivelmente, um ceticismo profundo. Trata-se de uma desconfiança construída ao longo de décadas, após sucessivos pleitos que pouco alteraram a realidade estrutural do país.
O episódio mais recente, ainda com desdobramentos imprevisíveis, escancara o nível de tensão institucional: a recusa do Congresso em aprovar o nome indicado para uma vaga no Supremo. Mais surpreendente ainda foi assistir a ministros da própria Corte atuando, nos bastidores, como verdadeiros cabos eleitorais – uns a favor, outros contra o indicado do presidente da República. Um cenário, no mínimo, surreal.
Enquanto isso, em contraste com a gravidade do momento, a Justiça Eleitoral já iniciou a veiculação de campanhas exaltando a importância do voto. A mensagem, embora institucionalmente necessária, soa, para muitos, como desconectada da realidade. Em um país marcado por frustrações recorrentes, a confiança no processo eleitoral já não é unanimidade.
Resta ao brasileiro, mais uma vez, assistir ao desenrolar desse faroeste político, torcendo para que, em meio ao barulho dos disparos, ainda seja possível vislumbrar algum caminho de estabilidade e bom senso.