ENTREVISTA: LUÍS ALBERTO DE MORAES
“Mundos que não cabem em mapas: Uma conversa com o escritor que transforma um quintal de terra em universo literário”
Há universos inteiros escondidos nos lugares mais simples, esperando pelo olhar certo para ganhar vida. É essa sensibilidade que conduz O Meu Mundo do Nosso Quintal, segundo livro de Luís Alberto de Moraes, que mergulha nas descobertas, dores silenciosas e na imaginação do menino Tito. Bebendo na fonte do clássico O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, a obra é um convite tocante a revisitarmos nosso próprio passado com mais generosidade e afeto. A noite de autógrafos será no dia 23, às 19 horas, no Auditório Fábio Taneno, no Centro Educacional.
Nesta entrevista exclusiva, conversamos com Luís sobre o desafio da construção de personagens marcantes – como a força silenciosa da figura materna – e os pequenos gestos que marcam o fim da infância. Confira o bate-papo completo a seguir.
CJ- Seu livro traz uma forte conexão com o clássico O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. Como essa obra moldou sua visão sobre a infância e de que forma ela inspirou o nascimento do Tito?
LA- Acredito que muitos de nós tenhamos nos emocionado com a história contada através de “O meu pé de laranja lima”. A obra moldou a minha visão quanto a percepção de que por vezes a vida é cruel com a nossa infância, nos obrigando a ter que amadurecer antes da hora. Brincar no quintal foi o grande tesouro da minha casa na convivência com a minha família e eu emprestei isso ao Tito, que nasceu inspirado pelas perdas do Zezé.
CJ- O resumo menciona mundos que “nascem discretos, dentro de um quintal de terra”. O quanto do seu próprio quintal de infância e das suas memórias reais serviram de base para ambientar a história do Tito?
LA- No meu quintal realmente cabia o mundo todo e eu procurei ambientar as memórias de modo que o leitor também pudesse se sentir à vontade imaginando o seu próprio quintal. O lugar das brincadeiras também sempre é o lugar da imaginação. Quando a gente é criança o mundo parece maior. A minha memória afetiva sem dúvida se mistura com a história vivida pelo Tito, como aconteceu com José Mauro de Vasconcelos e seu personagem.
CJ – Tito encontra refúgio no imaginário, transformando pedaços de madeira em aviões. Para você, qual é a importância de resgatar esse poder da imaginação infantil nos dias de hoje, em uma literatura voltada para o público atual?
LA- Resgatar o que a imaginação proporciona à minha geração é uma maneira também de lembrar a importância das brincadeiras. Brincar sem as telas de hoje em dia, ralando os joelhos, machucando a ponta do dedão e sujando a roupa de barro é poesia pura. Minha intenção é resgatar esse sentimento somado à importância do livro na forma física a essa nova geração de leitores.
CJ- A “Mãe”, escrita com letra maiúscula, é descrita como uma força silenciosa e o alicerce de tudo. Quem inspirou essa figura tão marcante e como foi o processo de construir essa homenagem em forma de personagem?
LA- A palavra Mãe aparece 145 vezes no livro. Todas elas com letra maiúscula. Por dois motivos: o primeiro deles é pela importância da figura materna. Na história, ela não tem nome. É simplesmente Mãe. Por outro lado, meu desejo é que essa figura a cada linha possa ser entendida como alguém que poderia ser a Mãe de qualquer um dos leitores. A homenagem é para minha Mãe, que me deixou em 2022.
CJ- O livro aborda o amadurecimento como um processo feito de “despedidas invisíveis” e dores silenciosas. Como foi, enquanto escritor, dosar a leveza das brincadeiras com a carga emocional dessas perdas que moldam o fim da infância?
LA- Tive uma criação apenas por parte da minha Mãe. A vida foi difícil, principalmente para ela ter que criar dois filhos sozinha. Tentei fazer exatamente isso: dosar a leveza com a carga emocional, mas demonstrar que a vida oferece rosas e espinhos. Os dois extremos são necessários e no caso do Tito, tem duas irmãs. Ele é o filho do meio e os leitores vão descobrir como foi a passagem do fim da infância para o amadurecimento.
CJ- Escrever sobre memórias e passados difíceis exige sensibilidade. Qual foi o capítulo ou momento mais desafiador de escrever, onde as emoções do Tito mais tocaram você?
LA- À medida que fui me aproximando do final, fiquei emocionado. Por referência a obra que foi a inspiração, sabia que o último capítulo seria o da confissão final. Sendo assim, o capítulo sobre o Natal me deixou profundamente tocado e foi desafiador fazer com que ele tivesse uma carga de esperança.
CJ- O que muda no seu olhar sobre o mundo após colocar o ponto final nesta obra?
LA- Pois é, a obra não está pronta. Continuo convivendo com ela e o ponto final, posso dizer que se trata de uma obrigação editorial. Uma hora é preciso imprimir para entregar à sociedade. Em mim tem aumentado a certeza de que vale a pena continuar tentando deixar um legado positivo para este mundo de existência tão breve.
CJ- Qual é a principal mensagem ou sentimento que você espera que permaneça vivo no coração do leitor quando ele fechar a última página?
LA- O sentimento que o José Mauro deixou, eu quero replicar humildemente em minha obra. Reafirmar que a vida sem ternura, não é lá grande coisa.
A infância de Tito pode se despedir em pequenos gestos, mas a leitura desta obra deixa marcas permanentes, mostrando que aquilo que nos constrói nunca deixa de existir em nós. (Wagner Azevedo – Foto: Divulgação)