Carta para quem ama festa junina

Querido amante de festa junina,

Há quem pense que o encanto das festas de junho está na comida. Outros acreditam que tudo se resume à música, às bandeirinhas coloridas ou à alegria das quadrilhas. Mas eu suspeito que exista algo mais profundo por trás desse afeto que tantas pessoas sentem quando o calendário finalmente chega ao mês de junho. Porque ninguém ama apenas a festa. Ama o que ela desperta.

O encanto nas festas juninas é que elas parecem ter o poder de nos transportar para um lugar que nem sempre existe no mapa. Um lugar feito de lembranças. De noites iluminadas por lâmpadas simples. De vozes se misturando ao som do forró. De crianças correndo sem pressa. De famílias reunidas em torno de uma mesa improvisada.

Talvez seja por isso que tantas pessoas aguardem essa época do ano com uma expectativa quase infantil. Não importa a idade. Quando as primeiras bandeirinhas começam a aparecer nas ruas, alguma coisa dentro de nós também se enfeita.

A festa junina tem uma beleza rara. Ela não depende do luxo. Não exige sofisticação. Pelo contrário, seu encanto nasce justamente da simplicidade. Um pedaço de bolo de milho servido em guardanapo de papel. Uma fogueira reunindo desconhecidos. Uma música antiga que todos sabem cantar. Pequenos elementos que, juntos, criam uma sensação de pertencimento que parece cada vez mais rara em um mundo tão acelerado.

Vivemos cercados por telas, notificações e compromissos. Corremos de um lado para outro tentando dar conta de tudo. E então chega junho, quase como um lembrete gentil de que a vida também pode acontecer devagar. Sentados em cadeiras de plástico. Conversando sem olhar para o relógio. Rindo de uma quadrilha improvisada. Compartilhando receitas que atravessaram gerações. Talvez o verdadeiro milagre da festa junina seja esse, por algumas horas ela nos devolve a capacidade de estar presentes.

E não deixa de ser curioso que uma celebração tão simples consiga sobreviver ao tempo. Décadas passam. As cidades mudam. Os costumes mudam. Mas as bandeirinhas continuam sendo penduradas. As receitas continuam sendo preparadas. As pessoas continuam se reunindo. Como se cada festa fosse uma pequena resistência contra o esquecimento. Como se estivéssemos dizendo que algumas tradições merecem permanecer porque carregam algo essencialmente humano.

Quem ama festa junina talvez ame justamente isso, a sensação de fazer parte de uma história maior. Uma história construída por avós, pais, filhos e netos. Uma história contada através de músicas, sabores e encontros. E talvez seja por isso que, ano após ano, continuamos voltando para ela. Não apenas pelas comidas ou pelas danças. Entre bandeirinhas coloridas e canecas de quentão, encontramos algo que passamos o resto do ano procurando, um lugar onde nos sentimos em casa. Porque certas épocas do ano não chegam apenas ao calendário, chegam também ao coração.

Com carinho, alguém que acredita que algumas das melhores lembranças da vida têm cheiro de milho cozido e luz de bandeirinhas.

 

 

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.