Bando de milionários

EDITORIAL

Quem teve o privilégio de viver e torcer pelo futebol brasileiro nas décadas de 1960, 1970 e até parte dos anos 1980 pode hoje se considerar um privilegiado, capaz de despertar inveja nas novas gerações de torcedores da seleção brasileira.

Foi-se o tempo em que os jogadores honravam a camisa da Seleção e proporcionavam alegrias ao povo. Foi-se o tempo em que os atletas carregavam consigo o orgulho de representar o Brasil e o treinador era, de fato, a alma da equipe. Foi-se também a época em que a CBF – então CBD – era comandada por dirigentes como Paulo Machado de Carvalho, que tinha o coração voltado ao futebol e à bandeira verde e amarela, chefiando delegações com respeito e compromisso.

O que mudou nesse futebol chamado de moderno, revolucionário e supostamente aperfeiçoado por escolas que formam treinadores e esquemas táticos cada vez mais sofisticados, mas cada vez mais distantes da essência do jogo?

Os homens que construíram a glória do futebol brasileiro, movidos pelo espírito coletivo e pela paixão de vestir a camisa da Seleção, deram lugar a um bando de milionários – com raríssimas exceções – mais preocupados com a própria imagem nas redes sociais do que com o desempenho em campo. Muitos deles são convocados, segundo a percepção de boa parte da torcida, por interesses que extrapolam os critérios exclusivamente técnicos. A camisa mais pesada do futebol mundial acabou sendo transformada em um simples uniforme, desprovido do simbolismo que a tornou reverenciada em todo o planeta.

Com o novo vexame na Copa do Mundo deste ano, disputada nos Estados Unidos, o Brasil ampliou um jejum que já dura 28 anos. Entre as seleções campeãs mundiais, passa a ocupar a segunda posição entre aquelas que estão há mais tempo sem conquistar o título, atrás apenas da Inglaterra, que em 2026 completou 60 anos desde sua única conquista, obtida em casa, em 1966.

Carlo Ancelotti, um dos treinadores mais vitoriosos da história do futebol de clubes, também entrou para a lista dos técnicos incapazes de recolocar a Seleção no caminho das grandes conquistas, ao lado de Dunga e Tite. Seu currículo internacional não foi suficiente para devolver identidade, competitividade e espírito coletivo ao time brasileiro.

Fora das quatro linhas, a CBF continua sendo um retrato do distanciamento entre seus dirigentes e o sentimento da torcida. Nem mesmo após a eliminação houve a preocupação de reunir a delegação para um retorno conjunto ao Brasil, em respeito aos milhões de brasileiros que acompanharam mais uma campanha frustrante. Cada jogador seguiu diretamente para seu destino particular, como se o compromisso com a Seleção terminasse no apito final.

Enquanto isso, encerrada a participação brasileira, boa parte dos atletas desfruta férias em iates, jatos particulares, hotéis luxuosos e destinos paradisíacos, uma realidade inalcançável para a imensa maioria dos torcedores que, mais uma vez, investiram esperança, tempo e emoção em uma equipe que pouco retribuiu dentro de campo.

A renovação do contrato de Carlo Ancelotti até 2030 apenas reforça a sensação de que pouco ou nada mudou na estrutura que administra o futebol brasileiro. O problema, contudo, parece ser muito maior do que o nome do treinador. Sem uma profunda transformação na CBF, nos critérios de convocação, na formação de atletas comprometidos com a camisa da Seleção e, principalmente, na recuperação do sentimento de pertencimento e responsabilidade de quem a veste, o torcedor continuará alimentando expectativas que dificilmente serão correspondidas.

O futebol brasileiro não perdeu apenas títulos; perdeu parte de sua identidade. E recuperá-la será um desafio muito maior do que conquistar uma sexta estrela.