A política como continuação da guerra pela linguagem

política moderna, além de se apresentar como espaço do diálogo, da negociação e do pacto, continua falando como se estivesse no campo de batalha. O candidato não disputa uma eleição: “entra na guerra”. O adversário não é concorrente: é inimigo. A campanha não se organiza apenas por ideias: monta “estratégias”, define “táticas”, escolhe “alvos”, concentra “fogo”, prepara “ataques”, executa “manobras”, “ocupa territórios” e busca “aniquilar” a resistência do outro.

A linguagem revela mais do que parece. Quando a política usa palavras da guerra, expõe a natureza conflitiva do poder. Toda campanha é uma disputa por corações, mentes, territórios sociais e simbólicos. Há generais de marketing, soldados de rua, artilharia digital, infantaria partidária, trincheiras ideológicas e bombardeios de versões. O voto transforma-se no território a conquistar.

Sun Tzu, o general-filósofo, que escreveu o livro “A Arte da Guerra”, há mais de 2.500 anos, ensinava que a vitória superior é vencer sem combater. Na política, isso significa desarmar o adversário antes que ele ataque: ocupar sua agenda, confundir sua base, antecipar seus movimentos, atraí-lo para terreno desfavorável. Miyamoto Musashi, perito na arte desenvolvida pelos samurais (duas espadas presas à faixa da cintura, com a lâmina para cima); recomendava ver o distante como próximo e o próximo com distância. Em seu famoso livro “Um Livro dos Cinco Anéis”, oferece lições preciosas para campanhas: perceber o detalhe escondido, a fraqueza invisível, o momento certo de “cruzar o riacho.”

Níccolò Machiavelli, considerado o artífice da Ciência Política, famoso por escrever “O Príncipe”, mostrou que o poder raramente caminha de mãos limpas. A aparência, a dissimulação, o cálculo e a administração do medo fazem parte do repertório dos que desejam mandar. O cardeal Mazarino, primeiro-ministro da França (1602-1661), um estadista italiano radicado na França, foi ainda mais cru: simular, dissimular, prever antes de agir, falar bem de todos e não confiar em ninguém. É a cartilha amarga da política como arte da sobrevivência.

Karl von Clausewitz, um filósofo da guerra, em seu livro “Da Guerra”, publicado por sua esposa em 1832, cunhou a ideia de que a guerra é continuação da política por outros meios. Talvez, hoje, seja possível inverter a frase: a política muitas vezes parece a continuação da guerra por meios verbais, eleitorais e midiáticos. Já Liddell Hart, um ex-capitão e conselheiro do Gabinete inglês, considerado um dos mais respeitados militares do mundo, mostrou, em seu livro “Grandes Guerras da História”, como a estratégia indireta ajuda a compreender a política contemporânea: nem sempre o ataque frontal é o mais eficaz. Muitas vezes, vence quem desgasta lentamente, corrói a credibilidade, mina a moral adversária e obriga o inimigo a errar.

O problema é quando a linguagem de guerra deixa de ser metáfora e passa a contaminar a democracia. O adversário vira traidor. A divergência vira ameaça. A negociação vira rendição. A prudência vira covardia. O centro vira pântano. A política, que deveria organizar o conflito civilizadamente, passa a incendiá-lo.

Campanhas precisam de estratégia, disciplina, método e foco. Mas democracia não é campo de extermínio. O objetivo da política não deveria ser destruir o adversário, mas convencer a sociedade. Não deveria ser esmagar o outro, mas construir maioria legítima. Não deveria ser manipular o eleitor, mas apresentar caminhos.

A política pode aprender com os estrategistas da guerra, desde que não esqueça sua finalidade civilizatória. Estratégia sem ética vira emboscada. Tática sem verdade vira fraude. Comunicação sem responsabilidade vira munição.

No fim, a grande batalha democrática não é contra este ou aquele adversário. É contra a tentação permanente de transformar a política em guerra total. Porque, quando a política abandona a palavra como ponte e a usa como espada, a democracia começa a sangrar.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação.

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