Quando o absurdo virou normal

DRIELLI PAOLA

Querida pessoa, talvez uma das coisas mais assustadoras da história seja perceber que as grandes tragédias nem sempre começam parecendo grandes tragédias. Às vezes, começam com uma frase. Com um discurso inflamado. Com alguém dizendo que o país precisa voltar a ser “forte”. Que determinados grupos são responsáveis pelos problemas. Que a ordem precisa ser recuperada. Que algumas pessoas deveriam ter menos espaço, menos direitos, menos voz. E, no começo, muita gente apenas escuta.

Na Europa das décadas de 1920 e 1930, depois da Primeira Guerra Mundial, havia países mergulhados em crises econômicas, desemprego, instabilidade política, medo e ressentimento. Era um terreno fértil para discursos que prometiam soluções simples para problemas complexos.

Foi assim que o fascismo ganhou força na Itália, com Benito Mussolini, e que o nazismo cresceu na Alemanha, sob Adolf Hitler.

Não aconteceu de uma hora para outra. Hitler não chegou ao poder dizendo, para uma multidão, tudo aquilo que viria depois. O caminho foi construído aos poucos, explorando insatisfações reais, oferecendo culpados convenientes e prometendo reconstruir a grandeza nacional. E, pouco a pouco, aquilo que parecia apenas discurso começou a virar política.

A imprensa foi sendo controlada. Oposição foi sendo perseguida. Instituições foram enfraquecidas. Minorias passaram a ser apresentadas como ameaça. A propaganda ocupou espaços cada vez maiores. A violência deixou de ser exceção e passou a ser instrumento político. E talvez esteja aí uma das maiores lições daquele período.

O perigo não está apenas quando alguém declara uma guerra. Está muito antes. Está quando começamos a achar normal que algumas pessoas sejam tratadas como menos importantes. Quando a violência contra determinados grupos é justificada porque “eles merecem”. Quando discordar passa a ser considerado traição. Quando questionar o governo vira falta de patriotismo. Quando a liberdade de imprensa começa a ser tratada como inconveniente.

A Segunda Guerra Mundial não surgiu do nada em 1939. Ela foi precedida por anos de escolhas, discursos, concessões, perseguições e silêncios. E talvez seja justamente por isso que olhar para aquele período ainda seja tão necessário.

Não para imaginar que a história simplesmente se repete da mesma maneira. Ela não se repete. Os tempos são outros, as sociedades são outras e os contextos também. Mas certos mecanismos humanos continuam conhecidos: o medo, o ressentimento, a necessidade de encontrar culpados, a sedução das respostas fáceis e a promessa de que, se eliminarmos aqueles que pensamos serem o problema, tudo finalmente ficará bem.

Só que a história mostrou o preço dessa promessa. Milhões de pessoas morreram porque uma sociedade permitiu que determinados seres humanos fossem, pouco a pouco, retirados da condição de iguais. Talvez a democracia não precise apenas de grandes discursos para ser defendida. Talvez precise, principalmente, da nossa atenção às pequenas coisas. Àquilo que parece exagero. Àquilo que alguém diz que “não é tão grave”. Aquilo que começa como piada, vira discurso, transforma-se em regra e, quando percebemos, já se tornou realidade.

Porque o perigo, muitas vezes, não chega batendo à porta. Às vezes, ele entra quando ainda estamos convencidos de que não há motivo para fechá-la.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.

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