As cinco forças que podem decidir a eleição

GAUDÊNCIO TORQUATO

Faltam dois dias para 4 de outubro, mas a eleição presidencial continua aberta. Lula e Flávio Bolsonaro chegam à reta final separados por pequena distância nas pesquisas e unidos por um número incômodo: segundo o Instituto Real Time Big Data (BR-04202/2026), Lula é rejeitado por 50% dos eleitores e Flávio Bolsonaro por 49%.

Quando os principais concorrentes enfrentam resistência tão elevada, a vitória depende também da habilidade de reduzir medos, mobilizar bases e convencer os indecisos de que o adversário representa risco maior.

Cinco forças poderão decidir o pleito. A primeira é a narrativa antissistema. Em períodos de descrença, quem consegue apresentar-se como adversário da velha ordem recebe o voto de protesto, mesmo pertencendo à política tradicional. Flávio tentará vestir esse figurino e associar Lula, o PT, o STF e a burocracia a uma mesma engrenagem de poder. Narrativas não precisam ser inteiramente verdadeiras para produzir efeitos; precisam ser repetidas, compreendidas e sentidas.

Lula não pode competir com Flávio no terreno da ruptura. É presidente e encarna a continuidade. Sua resposta é apresentar o Estado como instrumento de proteção social. Para ele, a palavra-chave não é revolta, mas segurança: renda, comida, gás, luz, emprego e serviços. Confrontam-se duas promessas: a de quebrar o sistema e a de proteger os mais pobres contra as incertezas da vida.

Chegamos à segunda força: a continuidade e a expansão dos programas sociais. Eles chegam à mesa de milhões de famílias. Seu peso cresce no Nordeste, nas periferias e nos municípios menores, onde o Estado é percebido menos pelos discursos de Brasília e mais pelo dinheiro que entra em casa. Lula tentará converter essa capilaridade em voto. Flávio, para neutralizar a vantagem, precisará garantir a manutenção dos benefícios sem reproduzir o modelo petista.

A terceira força é o reajuste de cerca de 15% no Bolsa Família, anunciado a apenas 17 dias da eleição. O benefício mínimo passa de R$ 600 para R$ 691, e o valor médio estimado, de R$ 675 para R$ 777. O governo afirma que o aumento recompõe a inflação desde a reformulação do programa, em 2023, e que houve espaço fiscal. Politicamente, porém, é impossível separar o calendário do conteúdo. Uma decisão dessa magnitude, às vésperas da votação, projeta a imagem de um governo que entrega ganho concreto quando o eleitor forma sua decisão.

O efeito não é automático. Como os novos pagamentos começam depois do primeiro turno, em 19 de outubro, o governo venderá uma expectativa, não dinheiro já depositado. A oposição explorará o caráter eleitoral, o custo futuro e a sustentabilidade da medida. O reajuste pode reforçar Lula entre beneficiários, mas alimentar, na classe média, a percepção de uso da máquina. A política social funciona melhor quando é vista como direito permanente; perde força quando parece favor de ocasião.

A quarta força é a rejeição. Os 50% atribuídos a Lula e os 49% atribuídos a Flávio pela última pesquisa Real Time Big Data indicam que a eleição poderá ser menos uma escolha entusiasmada do que um julgamento comparativo. Cada campanha procurará vencer pelo medo: da volta do bolsonarismo ou da continuidade do petismo. O desafio será impedir que a própria rejeição ultrapasse a metade do eleitorado. Pequenos deslocamentos entre indecisos, eleitores de candidatos menores e abstencionistas poderão definir quem chegará ao segundo turno em melhores condições — e quem terá o teto mais baixo.

A quinta força é a crise no STF. Ela afeta mais Lula ou Flávio? No primeiro momento, tende a atingir mais Lula. O presidente é identificado com o poder constituído, nomeou Flávio Dino para a Corte e teve no Supremo um anteparo contra o bolsonarismo. Quando ministros se confrontam e suspeitas do caso Banco Master atingem o tribunal, a indignação favorece quem fala contra o sistema. Flávio ganha munição para mobilizar eleitores que já enxergam o STF como ator político, e não apenas como guardião da Constituição.

Mas a crise é uma faca de dois gumes. André Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro, e eventuais vínculos do escândalo com personagens do campo bolsonarista podem desmontar a narrativa de pureza da oposição. Lula tenta atribuir o caso ao ambiente do governo anterior e defender uma apuração geral.

Se a crise permanecer como símbolo de arrogância institucional, prejudicará mais o presidente. Se produzir provas contra figuras próximas ao bolsonarismo, poderá ferir Flávio. O impacto dependerá menos do barulho e mais do rumo das investigações.

Em eleições apertadas, não vence necessariamente quem desperta maior admiração. Muitas vezes, vence quem administra melhor a própria rejeição, oferece a segurança mais crível e convence o eleitor de que o outro lado representa o maior perigo. No dia 4 de outubro, a urna poderá registrar menos um voto de amor do que um voto de necessidade, prevenção ou medo.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação.

Posts similares

  • O carro na estrada

    O noticiário começa a estampar: vem por aí ampla reforma ministerial. Fala-se em troca de dez ministros. E qual seria o motivo? Escalar um time de tom substancialmente político, capaz de dar respostas às demandas partidárias e construir a fortaleza do candidato Jair Bolsonaro com vistas ao pleito de outubro de 2022. Pois é, pode…

  • A infância roubada

    No Brasil, a infância tem sido abreviada por duas forças opostas, mas complementares: a pobreza estrutural e a cultura do consumo midiático. De um lado, milhões de crianças são obrigadas a assumir responsabilidades adultas cedo demais, cuidando de irmãos, ajudando no sustento da casa ou, simplesmente, sendo empurradas para o trabalho infantil. De outro, crianças…

  • Tempos de caos

    O relógio do Juízo Final está perto da meia-noite. Para quem desconhece a história. Em 1947, a artista norte-americana Martyl Langsdorf, esposa do físico Alexander Goldsmith Jr., do projeto Manhattan (fabricação da bomba atômica), desenhou um relógio para a capa do Bulletin of the Atomic Scientists, da Universidade de Chicago. Este relógio faz uma analogia com…

  • O eleitor cidadão

    Se a política é a arte do possível, como tem sido conceituada, cabe considerá-la cada vez mais um exercício de fuga diante da realidade, principalmente nesses tempos de teatralização da vida pública, povoada por atores que recitam ladainhas decoradas e publicitários interessados em embalar os perfis no celofane de um ilusionismo falso. Quando um mago da…

  • A ética ganha impulso

    A ética volta com força à paisagem política? Uma explicação plausível para o fenômeno é o sucateamento das velhas ferramentas que mexem com os valores da política, a corrupção que continua a solapar as bases da democracia, a ausência de critérios racionais na gestão da res publica, o jogo de interesses onde os cartolas e os…

  • O mundo mais autoritário

    A constatação é triste: 72% da população mundial vive hoje em países não democráticos, ditaduras ou autocracias eleitorais. Na última década, as ditaduras subiram de 22 para 33, enquanto os sistemas democráticos caíram de 44 para 32. Sobe também o número de democracias falhas, tipo a brasileira, um modelo híbrido que abriga componentes de regimes…