Casa da Mãe Joana

EDITORIAL

Os alfarrábios explicam que a expressão mundialmente conhecida “Casa da Mãe Joana” significa, entre outras conotações, lugar ou situação onde vale tudo, sem ordem ou regras, em que a confusão, a desorganização e a balbúrdia reinam absolutas.

A origem mais provável remonta ao século XIV, em alusão à ordenação de D. Joana I, rainha de Nápoles e condessa da Provença, que teria se refugiado na França, nos bordéis de Avignon, após conspirar para a morte de seu marido.

Uma vez em território francês, tornou-se a mandachuva do lugar, com direito a regulamentar o funcionamento dos bordéis. A partir daí, cada prostíbulo teria passado a ser chamado de “Paço da Mãe Joana”, nomenclatura que, aportuguesada, acabou dando origem à conhecida “Casa da Mãe Joana”.

Os mais letrados recorrem à expressão para descrever ambientes sem regras claras ou liderança definida, situações de bagunça generalizada, onde ninguém parece saber quem manda ou, pior ainda, onde todos parecem mandar. Também acabou incorporada ao vocabulário popular como referência a prostíbulo.

Segundo a história que atravessou os séculos, Joana era gentil com suas prostitutas, a quem pagava bons salários, fornecia alimentação e procurava protegê-las de problemas. Uma narrativa que mistura política, escândalo, poder e regulamentação urbana de um jeito que nenhuma bagunça doméstica chega perto de igualar.

Embora os registros históricos remontem ao século XIV, não parece haver alguma semelhança com o que temos visto neste país de desdentados e incautos? Não guarda alguma correspondência com o momento absurdo vivido por nossas instituições?

Neste momento que o país atravessa, em que mocinhos se transformam em bandidos, leis são rasgadas e a disputa por poder e dinheiro parece estar acima do bem e do mal, não seria mais do que justo reverenciar aquela que, pelo menos segundo a história, foi pioneira nesse peculiar modelo de governança, agora revivido com assustadora intensidade em Brasília?

Talvez a grande diferença esteja apenas no endereço. Lá, em Avignon, a Casa da Mãe Joana tinha portas, quartos e frequentadores conhecidos. Aqui, ao que parece, as portas estão escancaradas, os quartos se multiplicaram e ninguém sabe exatamente quem entrou, quem saiu ou quem está pagando a conta. E, para completar a ironia, a placa na entrada continua dizendo que tudo funciona dentro da mais absoluta normalidade.

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