Segundo Jean-Paul Sartre, “o homem está condenado a ser livre”. Essa frase não vem como uma celebração, mas como uma sentença, uma vez que que passamos a vida inteira tentando transferir ou dividir esse peso.
Pedimos opiniões, buscamos consensos, consultamos especialistas. Dormimos pensando e acordamos sem respostas porque, no fundo, sabemos que, no momento decisivo, estaremos sozinhos com as nossas escolhas.
Isso me aparece com frequência na advocacia. Não nas questões técnicas, que possuem respostas na lei, na doutrina e na jurisprudência, mas naquelas em que o cliente chega com o processo em mãos e uma pergunta que não cabe em nenhum artigo de Código algum: “O que você faria no meu lugar?”
O desejo por trás desse questionamento é legítimo: a busca por alguém mais experiente, ou mais distante da dor, que enxergue o que o próprio indivíduo não consegue ver.
No entanto, existe um limite intransponível para a atuação de qualquer conselheiro, pois a decisão esbarra no âmbito existencial. É possível mostrar os caminhos, mapear os riscos de cada opção, apontar o que o Direito protege e o que ele desampara, mas o que não se pode fazer é assumir o lugar do outro na hora do veredito.
A escolha carrega a identidade de quem a faz.
Era isso o que Sartre queria dizer com “condenação”: não existe escolha certa no sentido absoluto, mas a escolha que se consegue sustentar; aquela com a qual se pode viver, que fará sentido na narrativa que cada um constrói de si mesmo e de seus valores.
Decisões difíceis não pedem perfeição, e sim autoria. Mesmo quando decidimos com base no conselho de terceiros, o peso das consequências não é atenuado e não pode ser compartilhado.
Talvez seja exatamente isso o que torna as grandes escolhas tão complexas: não é a falta de informação, mas a consciência de que, no final, a autoria é individual e o futuro, inteiramente nosso.
*Victoria Contreras é advogada e servidora pública