O absurdo normalizado

 “A ignorância é a noite da mente, mas uma noite sem lua nem estrelas.” (Confúcio)

Vivemos tempos curiosos e, ao mesmo tempo, preocupantes. Aos poucos, aquilo que antes nos causava estranhamento, indignação ou desconforto, passou a ser visto como algo comum. O problema é que, quando o absurdo se torna rotina, deixamos de percebê-lo como problema.

A pressa, o estresse constante, a falta de respeito nas relações, a indiferença com o sofrimento do outro… tudo isso foi sendo incorporado ao nosso dia a dia como se fosse simplesmente “parte da vida”. Mas será mesmo?

O ser humano tem uma capacidade impressionante de adaptação. Isso, por um lado, nos ajuda a sobreviver. Por outro, pode nos tornar perigosamente tolerantes ao que não deveria ser aceito. Quando nos acostumamos com o excesso de cobranças, com relações superficiais ou até com a falta de empatia, começamos a perder a sensibilidade diante do que está errado.

Na prática, isso aparece de várias formas: normalizamos jornadas exaustivas como sinal de sucesso, tratamos a ansiedade como algo banal, ignoramos sinais de sofrimento emocional e, muitas vezes, julgamos mais do que acolhemos. Se colocar no lugar do outro está fora de moda… O que antes era sinal de alerta passa a ser encarado como fraqueza ou exagero.

Sob um olhar mais reflexivo, essa naturalização do absurdo nos afasta de uma vida consciente. Deixamos de questionar, de refletir e, principalmente, de nos posicionar. Passamos a viver no automático, aceitando padrões que nem sempre fazem sentido nem para nós, nem para a sociedade.

E talvez o mais preocupante seja isso: quando ninguém mais estranha, ninguém mais questiona.

Mas é justamente o incômodo que nos faz crescer. É o desconforto que nos tira da inércia. Questionar o que parece “normal” é um exercício de consciência e também de coragem.

Nem tudo o que se tornou comum é saudável. Nem tudo o que é rotina é correto. E nem tudo o que “todo mundo faz” deveria ser aceito sem reflexão, passar por cima dos outros para satisfazer o próprio ego é errado e faz mal à saúde mental e social.

Reflexão – Talvez esteja na hora de parar e se perguntar: o que, na minha vida e ao meu redor, eu aceitei como normal… mas não deveria? Porque mudar a realidade começa, antes de tudo, com a capacidade de enxergá-la como ela realmente é.

 

 

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduando em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.

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