Texto para enviar ao seu amigo

Quando Roberto Carlos canta sobre querer ter um milhão de amigos, penso que a música seja belíssima, aliás as músicas que falam de amigos e amizades costumam emocionar. Aos primeiros toques nas notas de “Canção da América” eu logo fico saudoso do Sr. “Antenor”, que quando se foi eu era muito jovem para entender a sua ausência.

Não sei quantos de vocês leitores do Correio, possuem amigos para mais de dez anos, vinte anos ou trinta anos talvez. Saiba que está cada vez mais difícil chegar a tanto. Talvez pelo advento da tecnologia, de fato as pessoas tenham se desabituado a consertar as coisas e as relações. Como um aparelho eletrônico quando fica velho, simplesmente colocamos outro no lugar. Quando um objeto está obsoleto, rapidamente deixamos de lado e jogamos fora.

Há quem leve isso para a vida e para as amizades. O enfrentamento para as diferenças e o desconforto para a sinceridade das conversas difíceis parecem mesmo ser algo a ser evitado. Então, muitas amizades terminam por serem tratadas como se fossem um aparelho desses descartáveis, cujo critério seja a utilidade. Histórias jogadas fora, momentos desperdiçados, dias que não chegaram, comemorações que não foram feitas, abraços que nunca mais serão abraços. Quase sempre o motivo é banal.

Reflito que isso acontece, pois as relações quase sempre nascem regadas a interesses. Alguns ocultos pela hipocrisia, outros pela maldade mesmo. Vontade de estar perto de alguém para se beneficiar virou um jogo esquisito. Então, quando os interesses mudam, a amizade já não tem mais o mesmo valor. As histórias são esquecidas, pois o que importa são os objetivos particulares.

Amizades verdadeiras, desinteressadas, são as que permanecem quando o tempo peneira as presenças e a vida separa os aplausos dos afetos. Elas nascem das boas conversas, da prosa que atravessa tardes inteiras sem pressa, do riso que não cobra explicação, do querer bem sem contrato. São feitas da delicadeza rara de quem suporta a felicidade do outro sem inveja, de quem celebra sem medir, de quem permanece sem precisar de holofotes.

Aprendi que amigos serão sempre poucos e ainda bem que poucos. Porque amizade não é multidão, é escolha. No meu caso, posso contar nos dedos aqueles que, tenho certeza, acompanharão meu cortejo segurando pelas alças da urna funerária. Não por obrigação social, mas por história partilhada. Não será aquela “chuvinha” irônica descrita no primeiro capítulo de Brás Cubas, um desfile de vaidades e curiosidades. Será silêncio respeitoso, passo firme e memória viva.

Errei muitas vezes com meus amigos e eles erraram comigo e sabe o que houve? Seguimos em frente, pois há um valioso tesouro entre nós, que nos ensina na vida quem fica é quem foi presença quando não havia palco. Amigos não são os que aparecem na fotografia, mas os que atravessam o tempo. Não são os que sabem do nosso sucesso, mas os que conhecem nossas dores. Porque amizade verdadeira não morre: caminha conosco até o último capítulo e ainda nos carrega quando já não podemos mais andar.

 

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”

 

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