Metamorfose

“Existir é ser olhado.” (Franz Kafka)

Foi relendo “A Metamorfose”, livro que meu filho Gabriel trouxe como leitura solicitada no colégio dele, que me vi novamente mergulhado nas páginas densas de Franz Kafka e nas inquietações que essa obra desperta.
À primeira vista, trata-se apenas da história de Gregor Samsa, um homem comum que acorda certo dia transformado em um inseto gigante. Mas, à medida que avançamos na leitura, percebemos que o verdadeiro tema não é a metamorfose física, e sim a lenta e dolorosa transformação social e emocional que o ser humano sofre quando deixa de ser útil aos olhos dos outros.
Gregor, que sustentava a família com seu trabalho exaustivo, torna-se um peso quando já não pode mais produzir. O amor e a compaixão cedem lugar ao incômodo e à rejeição.
A casa, que antes era abrigo, transforma-se em prisão. E o que Kafka denuncia, com sutileza e dor, é o mesmo que ainda vivemos hoje: a desumanização silenciosa promovida por uma sociedade que mede o valor das pessoas pela eficiência, pelo desempenho, pela aparência e não pela essência.
Lendo junto com o Gabriel, percebi que “A Metamorfose” continua atual porque todos nós, em algum momento, passamos por transformações internas que o mundo não entende. Mudamos, cansamos, adoecemos, e às vezes nos vemos também trancados em nossos próprios quartos emocionais, invisíveis aos olhos de quem só enxerga resultados.
Vivemos em tempos em que a pressa virou virtude, o cansaço é ignorado e a empatia parece fora de moda. Quantos “Gregores” modernos andam por aí, exaustos, sufocados pela rotina e pela cobrança constante de serem produtivos? Quantas famílias, empresas e instituições valorizam mais alguém que faz do que que alguém é?
Kafka nos oferece um espelho duro, mas necessário. Ele não fala apenas de um homem transformado em inseto, mas de uma humanidade que, pouco a pouco, se transforma em máquina.
Reflexão Final – Este livro nos lembra que a verdadeira metamorfose não é a do corpo, mas a da alma. Mudar é parte da vida, mas desumanizar-se é uma escolha. Quando o outro deixa de ser visto, algo também se perde dentro de nós. Talvez o maior desafio do nosso tempo seja reaprender a enxergar não com os olhos da pressa, mas com os olhos do coração.
Que saibamos reconhecer os “Gregores” ao nosso redor antes que desapareçam sob o peso da indiferença. E que a nossa transformação seja, sempre, em direção à humanidade.

Raphael Blanes é Servidor Público Municipal, formado em Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, especialista em Gestão Hospitalar, graduando em Filosofia e Psicologia. Instagram: @raphaelblanes Email: blanes.med@gmail.com.