Quarenta dias

“A escuta verdadeira torna-nos mais disponíveis para cuidar.” (Papa Leão XIV)

Há períodos do ano que funcionam como lembretes coletivos de pausa. A Quaresma é um deles. Mesmo para quem não tem prática religiosa, esses quarenta dias podem ser vistos como um convite sereno a recalcular a rota, sem culpa nem cobranças, mas com o sincero desejo de melhorar um pouco. Nada grandioso: apenas a chance de ajustar o que, no cotidiano, vai se acumulando sem que percebamos.

O Papa Leão XIV resume esse caminho em três movimentos simples. O primeiro é escutar. Segundo ele, a disposição de ouvir é o sinal inicial de que queremos realmente nos relacionar. Em termos humanos, escutar é entrar em contato real com o outro, reconhecer sua existência e dignidade, e demonstrar isso em atitudes. Quando alguém se sente ouvido, algo essencial acontece: cria-se conexão. E é dessa conexão que nascem confiança, cuidado e cooperação.

O segundo é jejuar, entendido de forma mais ampla: conter excessos e ordenar impulsos. Não apenas na fala, mas também nos pensamentos e reações que alimentamos internamente. Entre as propostas, ele destaca uma abstinência muito concreta e atual evitar palavras que machucam. Suspender comentários agressivos, ironias corrosivas ou julgamentos precipitados. Em vez disso, cultivar uma comunicação mais respeitosa em casa, no trabalho e nas interações públicas. A linguagem molda o clima emocional dos ambientes; quando ela se torna mais cuidadosa, as relações também se tornam.

O terceiro ponto é fazer isso juntos. Mudanças consistentes raramente acontecem isoladamente. Famílias, grupos e equipes podem usar esse período como um pequeno ensaio de convivência mais consciente: ouvir com atenção, reagir com menos dureza, falar com mais responsabilidade. O processo pessoal ganha força quando encontra apoio no coletivo.

No fundo, a proposta desses quarenta dias é prática e universal: escolher algo para diminuir e algo para ampliar. Reduzir atitudes que afastam; aumentar gestos que aproximam. Pequenas conversões diárias, quase invisíveis, mas capazes de alterar a qualidade das relações e o modo como percebemos nelas.

Reflexão final – E se, por quarenta dias, cada pessoa decidisse jejuar de um pensamento ou atitude que endurece e exercitar uma escuta que aproxima (escuta ativa)? Escutar é reconhecer o outro como alguém que verdadeiramente existe. Quando a presença substitui a pressa e o cuidado substitui a dureza, a convivência muda e nós também.

 

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduando em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.