Quando o silêncio adoece: avanço das DSTs entre jovens

“A saúde não começa no hospital, começa na forma como falamos, escutamos e cuidamos uns dos outros.” (Sérgio Arouca)

Outro dia estava conversando com uma amiga, grande profissional da saúde, daquelas que vivem intensamente o cotidiano das unidades básicas: escutando histórias, acolhendo dores e tentando conter problemas que poderiam ser evitados. Em meio à conversa, um dado nos chamou a atenção e trouxe preocupação: o aumento expressivo dos casos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) entre jovens e adolescentes.
Esse crescimento não é apenas estatística. Ele se traduz em histórias reais, diagnósticos cada vez mais precoces e consequências que podem acompanhar esses jovens por toda a vida. Sífilis, HIV, HPV, gonorreia e clamídia estão sendo identificadas em idades em que, muitas vezes, ainda falta informação, maturidade emocional e compreensão dos riscos envolvidos.
As complicações vão além do aspecto físico. DSTs não tratadas podem causar infertilidade, problemas neurológicos e cardíacos, alguns tipos de câncer, além de sofrimento emocional, medo, preconceito e impacto direto na autoestima. Em muitos casos, o diagnóstico chega cercado de silêncio e solidão.
O silêncio, aliás, é um dos maiores desafios. Silêncio em casa, nas conversas familiares e, por vezes, até na escola. Falar sobre sexualidade ainda é visto como tabu, quando, na verdade, a informação clara e o diálogo aberto são instrumentos fundamentais de proteção. Jovens que conversam, que se sentem acolhidos e orientados, tendem a se cuidar mais e a fazer escolhas mais conscientes.
A família tem papel essencial nesse processo, não apenas ao falar sobre sexo, mas sobre cuidado, respeito ao próprio corpo, responsabilidade e afetividade. O sanitarista Sérgio Arouca já afirmava que “saúde é resultado das condições de vida, da informação e das relações que construímos em sociedade”. Ou seja, prevenção também nasce no vínculo, na escuta e no acesso ao conhecimento.
A saúde pública, por sua vez, é peça-chave nesse cenário. Campanhas educativas, testagens rápidas, acompanhamento clínico e ações nos territórios são estratégias indispensáveis. E é impossível não destacar o trabalho dos profissionais da saúde de base, médicos, enfermeiros, psicólogos e agentes comunitários que conhecem as famílias, as vulnerabilidades e a realidade local. Muitas vezes, uma conversa acolhedora ou uma orientação simples muda trajetórias.
O filósofo Michel Foucault lembrava que “cuidar de si é também uma prática social”. Pensar a sexualidade de forma responsável, informada e humana é um cuidado que ultrapassa o indivíduo e fortalece toda a comunidade.
Reflexão – Falar sobre o aumento das DSTs entre jovens não é alarmismo, é compromisso com a vida. Informação protege, diálogo fortalece e cuidado compartilhado constrói caminhos mais saudáveis. Talvez o mais importante não seja procurar erros, mas ampliar pontes de escuta, orientação e cuidado juntos, como sociedade, como poder público, enfim de forma ampla e contínua em comunidade.

Raphael Blanes: Servidor Público Municipal, formado em Filosofia, Gestão em Saúde Pública, Técnico em Vigilância em Saúde com ênfase no Combate às Endemias, Gestão Hospitalar, Saúde Única (One Health), RH e Desenvolvimento de Equipes e graduando em Psicologia. Instagram: @raphaelblanes – Email: blanes.med@gmail.com.