Organizando os papeis da mesa

Organizar a vida é um desses projetos que a gente começa toda segunda-feira. Escreve num papel, cola na geladeira com ímã de propaganda de pizzaria e de entrega de botijão de gás, anota na agenda do celular, coloca lembrete, alarme, notificação e mesmo assim, muitas vezes, o dia termina e a sensação é de que o tempo passou correndo por nós. Quem anda entusiasmado com ideias sabe bem como é. A cabeça fervilha de planos: um projeto novo, uma mudança de hábito, uma viagem adiada, um sonho antigo que pede passagem.

O problema é que o entusiasmo tem pernas longas e o relógio não perdoa. Quando percebemos, a semana acabou, o mês virou, e aquilo que parecia urgente foi ficando para trás, esquecido entre um compromisso e outro.

Há dias que eu tenho vontade de ligar o computador durante a madrugada e confesso fazer sempre um exercício diário de organização. Nada heroico. Coisas simples: tentar me alimentar melhor, cuidar da saúde, planejar os próximos passos, sonhar com algumas viagens, dar nome aos projetos e, principalmente, respeitar o ritmo do tempo. Viver da melhor maneira possível, sem pressa, é claro. Porque a pressa engana. Ela promete eficiência, mas muitas vezes entrega apenas cansaço.

Organizar não é controlar tudo. É escolher o que merece atenção. É entender que o corpo também precisa entrar na agenda, que a saúde não pode ser tratada como compromisso adiável, que os sonhos precisam de data para começar a existir. Caso contrário, ficam apenas na gaveta das intenções, ao lado dos papéis amarelados que um dia colamos na geladeira.

Nesta semana, a morte do influenciador Madeirite, aos apenas 50 anos, me deixou especialmente reflexivo. Não pela fama, mas pela idade. Cinquenta anos é um número que não deveria caber na palavra “fim”.

A notícia chegou como um recado silencioso: o tempo não negocia, não espera, não avisa com antecedência suficiente. Ele apenas passa. E é curioso como a morte, quando visita alguém que parecia tão presente, tão ativo, tão cotidiano nas telas e nas conversas, nos obriga a rever nossas listas.

Aquilo que anotamos para “depois” perde um pouco o sentido. Aquilo que deixamos para “quando der tempo” revela sua fragilidade. Talvez organizar a vida seja, no fundo, uma forma humilde de reconhecer que ela é finita.

E talvez seja esse o maior projeto de todos: organizar a própria existência para que ela não vire apenas uma sucessão de dias, mas uma história que valha a pena ser lembrada enquanto ainda estamos aqui para escrevê-la. Sensação ruim essa de sentir que perdemos tempo com algo inútil e que não enxergamos o que estava bem na frente e que não teve a importância que deveria ter.

No ano que vai voar, tenho certeza te convido a eleger prioridades e sair fazendo. Não há como chegar ao final de qualquer caminho se o primeiro passo não for dado. De passo a passo muitos caminhos vão se abrindo, eu garanto. Vale a pena a sensação boa de olhar depois para trás e ver que já não somos os mesmos.

 

 

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”