O livro do amanhã

Um livro que sente? Perguntei à Inteligência Artificial como será o livro do futuro. Ficara impressionado com a leitura de um ensaio na Folha de São Paulo sobre Escrita Artificial (FSP, 5/10/2025), de Rodrigo Tavares, professor catedrático na NOVA School of Business and Economics, em Portugal, onde o mestre apresenta quatro hipóteses sobre o livro do amanhã. Queria conferir as abordagens com a IA.
A primeira abordagem do professor Tavares, a mais provável, segundo ele, é a da coautoria. O escritor não delega a tarefa de escrever nem abdica da sua voz, mas usa a IA como prolongamento experimental da sua própria imaginação. O processo criativo deixa de ser um ato solitário e se converte em uma operação dialógica, quase socrática, em que a pergunta do autor encontra a resposta da máquina e esta, por sua vez, devolve novas perguntas.
A segunda hipótese é de resistência, ou seja, os livros na forma atual poderão se converter em artefatos de luxo, carregando a marca da lentidão, da limitação e da falibilidade.
Uma terceira hipótese é a do livro escrito exclusivamente pela IA, porém, validado pelo escritor. Nesse caso, agentes de IA poderão ser programados para capturar o idioleto de um autor (a maneira como uma pessoa fala, diferente de outras pessoas que falam a mesma língua), analisando todas as suas obras, as suas publicações na mídia, enfim, tudo o que alguma vez escreveu e disse.
A quarta hipótese – pasmem!!! – é o livro que se escreve em tempo real, à medida que o leitor o lê, de acordo com a interpretação que a máquina faz das suas reações, captadas por sensores de leitura ocular, ritmo cardíaco e até variações de expressão facial. Um livro que sente.
Curioso, quis saber um pouco mais da IA sobre essas quatro hipóteses, principalmente a última, que me deixou perplexo.  Como um livro pode ser escrito à medida que o leitor o lê? Recebi uma resposta que me deixou pasmo: — A Inteligência Artificial e a revolução da computação emocional abrem um novo tempo: o do livro capaz de sentir, de reagir às emoções do leitor e, mais que isso, escrever-se enquanto é lido. A palavra, pela primeira vez, deixará de ser estática para tornar-se viva, mutante, interativa — um organismo sensível à presença humana”.
A IA explica que a fusão entre ela e a neurotecnologia abre caminho para essa metamorfose. E lembra que óculos inteligentes, telas interativas e relógios digitais já conseguem registrar expressões faciais, batimentos cardíacos, variações de voz e até dilatações das pupilas. “Os sinais, interpretados por sistemas de computação afetiva, revelam estados emocionais — tristeza, alegria, tédio, entusiasmo, angústia — e podem ser convertidos em comandos criativos”.
Imaginem um romance que muda de tom ao perceber a melancolia do leitor, ou um poema que floresce quando a alegria se manifesta. Mais um susto:  o texto, ao sentir, passa a responder. Abre-se, então, o ciclo da chamada “IA emocional”, capaz de interpretar sinais fisiológicos e ajustar respostas em tempo real, tecnologia que transformará o livro em entidade interativa, onde cada página é escrita pelo cruzamento entre algoritmo e afeto. A leitura deixará de ser ato passivo: converter-se-á em um diálogo emocional entre o leitor e a máquina narrativa.
O impacto será profundo. Cada leitor passará a viver uma história única, impossível de repetir. Diz a IA: “a tristeza de um instante poderá gerar um capítulo sombrio; o entusiasmo, uma reviravolta luminosa; a nostalgia, um retorno poético. O livro se tornará uma extensão da psique humana, uma narrativa viva, moldada pela subjetividade de quem o lê. Nesse novo cenário, a literatura deixa de ser uma obra fechada e passa a ser processo em constante mutação.”
É o caso de perguntar: quem será o autor? Se o texto nasce das emoções do leitor e da inteligência da máquina, o conceito tradicional de autoria se dissolve. O escritor humano continuará a existir, mas seu papel será o de curador de experiências, o arquiteto de um campo de possibilidades. Cada leitura completará a obra, tornando o leitor um coautor involuntário. A literatura do futuro será circular: o livro escreverá o leitor enquanto o leitor escreverá o livro.
Quem garantirá o sigilo das informações do livro? Quem controlará os dados das emoções humanas convertidos em texto? Até que ponto a emoção pode ser digitalizada sem perder sua essência? A literatura, que sempre nasceu da liberdade, pode ser convertida em produto algorítmico a serviço da vigilância? Seria um desastre se isso fosse possível.
A possibilidade de um livro que respira com o leitor devolve à leitura algo que o mundo digital havia apagado: a intimidade. Ler foi um ato de solidão compartilhada entre a mente do autor e a imaginação do leitor. “Essa solidão será acompanhada no futuro por uma presença invisível, uma inteligência que observa, interpreta e cria. O livro, enfim, sentirá conosco”.
Quando esse ciclo for aberto, a experiência literária ultrapassará o campo das palavras. Cada emoção será matéria-prima de escrita; cada respiração, um ponto de inflexão na narrativa. O leitor poderá descobrir-se em meio ao texto, ver refletidas na página suas próprias inquietações.
A literatura cumprirá, de modo radical, sua missão mais antiga: traduzir a alma humana.
O futuro está chegando apressado.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação.

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