Não olhe para cima

Na última semana, na companhia de um grande amigo, reassisti o filme “Não olhe Para cima” (Don’t Look Up), lançado em 2021. O longa-metragem, que conta com atores do alto escalão hollywoodiano como Meryl Streep e Leonardo Di Caprio, não é apenas uma comédia satírica sobre a crise climática e a negação científica. Trata-se de uma obra carregada de simbolismo e uma crítica feroz às falhas estruturais da sociedade contemporânea.
O enredo apresenta um cenário no qual dois astrônomos tentam alertar o mundo sobre a iminente destruição da Terra, causada por um cometa em rota de colisão com o planeta. Porém, ao invés de serem ouvidos e recebidos como especialistas, seus avisos são minimizados, ridicularizados ou simplesmente ignorados. O grande trágico da obra não é apenas a iminente catástrofe, mas como a sociedade lida com a ideia de uma verdade inconveniente.
O filme é uma metáfora da nossa realidade, na qual cientistas e especialistas, em várias áreas do conhecimento, frequentemente enfrentam resistência e descrédito, mesmo diante de dados científicos robustos – o que infelizmente vimos, em larga escala, na questão da Covid-19 e a vacinação.
No entanto, não é apenas o negacionismo das evidências que o filme aborda, mas também a superficialidade com a qual lidamos com crises que demandam uma ação urgente e coordenada. Além disso, ao menos para mim, levou a refletir sobre a pequenez dos problemas cotidianos quando o que está em pauta é todo o planeta Terra e a vida que conhecemos. De fato, me peguei refletindo nessa realidade hipotética e qual poderia ser minha atitude diante de um evento como este.
Veja, não estamos falando de uma doença terminal na qual o doente tem no máximo seis meses de vida – o que já seria motivo suficiente para qualquer um colapsar. Estamos analisando um cenário no qual todos os seres, humanos ou não, teriam findados a sua existência terrestre, de um só vez. De fato, não consegui imaginar com maiores detalhes o que realmente faria, mas imagino que buscaria aproveitar o maior tempo possível junto dos meus, além, é claro, de gastar tudo que pudesse com viagens e a melhor comida que o dinheiro pode pagar.
Mas volvendo a realidade, o roteiro nos convida a refletir se estamos mesmos dispostos a olhar para cima e aceitar o que está à nossa frente ou se preferimos viver na negação confortável. O filme é, sem dúvida, um grito de alerta, mas é também um espelho que reflete as nossas próprias falhas.
Não Olhe para Cima é, sem dúvida, uma obra provocadora que força o espectador a confrontar a nossa própria cegueira diante das ameaças globais que enfrentamos. Quantas vezes já olhamos para um problema sério, individual ou coletivo, e decidimos que “não era para agora”? Talvez a lição mais importante que eu tenha extraído é de que a verdadeira catástrofe não será causada pela falta de conhecimento, mas pela nossa relutância em agir quando as evidências estão todas à nossa frente.
E a você, caro leitor, recomendo não só que assista o filme em questão, mas que reflita sobre a verdade amarga que ele reproduz: a responsabilidade é nossa, e a inação é uma forma de consentimento.
E eu, você já sabe, prefiro viver assim, sei que sou mais feliz desta forma… provocando em você as reflexões e devaneios que habitam minha mente. Afinal de contas, divagar em conjunto tem sido mais prazeroso.

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.