Imutável destino, ventos e remédios

Existe uma dor que nunca vai embora. A dor de perder o que a morte encerrou é um sentimento que a gente não se acostuma jamais. Não tem esse negócio do tempo curar. A ferida vai se acostumando por dentro, mas qualquer lembrança afetiva, mesmo que seja um cheiro, uma rua parecida, uma propaganda, alguém na calçada; já basta para que tudo retorne ao mesmo minuto onde a vida parou.
Eu bati os olhos em uma face envelhecida esses dias e mesmo de perfil eu reconheci umas lembranças. Sem querer eu senti essa dor outra vez. A teoria do luto eu conheço de cor, pois já li e já ensinei que o tamanho obedece a grandeza da pessoa amada. De que adianta conhecer todas as teorias se quando preciso, parece não fazer sentido.
Essa semana enquanto eu caminhava pelos corredores de um cemitério na despedida de uma pessoa muito querida, fiquei refletindo isso. Eu não gosto de falar de morte, muito menos sou de remoer publicamente alguma dor, então considere leitor, um desabafo, como um amigo faz aos ouvidos de alguém que confia.
Nos meus passos por entre as lápides senti uma brisa fresca e não resisti pensar o tempo como um vento que sopra e que quando sopra revela o que permanece e o que é frágil e vai embora, e também separa o que é de verdade e o que é de mentira. Vi uma folha seca subir rápido pelo ar totalmente refém da força daquela brisa e tive certeza de que ela já cumprira seu papel a ponto de agora um leve sopro já ser capaz de arrastá-la para longe.
Por outro lado, também olhei frondosas árvores que estão lá por décadas, indiferentes a erosão dos túmulos, tempestades e até mensagens gravadas com a ponta do canivete. Elas desfolharam, sangraram, racharam as cascas, mas permaneceram de pé! Uma comparação que eu precisava para um dia triste do início do outono.
O céu deve ter uma pracinha e um banco com encosto para que possamos sentar e no banco uma sombra convide para uma prosa daquelas que nos levem a rir tanto que chegue a doer as bochechas. Pensar nessa imagem é um alento para as ausências e o estranho ritual de passar por ruas onde já caminharam os nossos amados.
Ir embora é algo que nos causa medo, mas ficar é tão doloroso que a gente chega a ter vontade de ir junto, mesmo sem saber como é do outro lado, até por que ninguém me provou ainda que teve quem voltou para contar dos dias que passou por lá. Aliás, esse negócio de ir e voltar, me parece uma teoria tão vazia mesmo e mais um remédio barato para dores de quem tem dificuldade de organizar o luto, então prefere um emplasto que alivie por pouco tempo uma dor de cabeça, mas que quando volta, dilacera mais ainda o corpo e a alma.
Enfim, cada um acredita do que quer, ou no que precisa.
De doer com certeza eu não me acabo e ainda que a dor não vá embora eu prefiro encarar de frente, apesar do pleonasmo vicioso e pouco me importa e redundância desde que eu cada vez mais seja capaz de olhar para as realidades sem um jeito infantil de imaginar que só eu tenho todas as respostas.

 

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”