Difícil é sempre começar

Há sempre uma estranha batalha que se trava dentro de nós quando tentamos transformar o necessário em hábito. Que dificuldade vencer a preguiça! A mente, tão hábil em criar sonhos, não raro tropeça na hora de moldá-los na prática cotidiana. E é nesse intervalo, entre a intenção e o gesto concreto, que a vida acontece. Porque o que nos eleva não são promessas, mas a repetição silenciosa dos pequenos esforços diários.
A procrastinação, essa palavra estranha e cada vez mais utilizada, vive dando sua olhadinha pela porta entreaberta, conhece bem nossas fraquezas. Ela sabe o momento exato de sussurrar: “mais tarde”, e como esse “mais tarde” se transforma em nunca. É impressionante como cedemos, como se houvesse uma eternidade aguardando pacientemente para que enfim tomemos coragem. No entanto, cedo ou tarde, percebemos que só colhe quem planta e planta todos os dias.
É bíblico, inclusive. Falando de disciplina, por sua vez, não é uma virtude que nasce pronta. É uma construção lenta, quase artesanal, feita de quedas, recomeços e pequenas vitórias que a gente tem que celebrar. Não é glamour que ela oferece, mas um chão firme, desses que sustentam o passo mesmo quando o ânimo fraqueja. Disciplina é ponte: levanta-nos do improviso e nos conduz para uma versão mais inteira de nós mesmos.
Já vi gente perder peso e ficar magrinho em meses e sei o que é sentir inveja disso. Não que eu esteja necessariamente gordo. Mesmo quanto a estudar e aprimorar, impressionante a facilidade de deixar para outro dia. A vida é cada vez mais apressada. Quando buscamos ampliar nosso conhecimento, descobrimos que estudar exige constância, mais do que talento.
Não é o ímpeto de um dia inspirado que transforma a mente, e sim o gesto persistente que se repete inclusive naqueles dias em que a vontade escorre pelos dedos. O saber amadurece devagar, como quem precisa ser visitado com paciência. Filosófico e verdadeiro, eu diria.
No corpo acontece o mesmo. Nenhum exercício isolado garante o resultado desejado. Alimentação, movimento, descanso: são pilares de uma casa que não se ergue por milagre. É preciso estar atento, porque o corpo fala e fala a verdade. Na saúde a lição se torna ainda mais urgente. Nada nela combina com improviso ou desculpas esfarrapadas.
Cuidar-se é ato de maturidade, quase de coragem, quando o mundo tão corrido insiste em transformar o essencial em detalhe. Mas quem aprende a honrar o próprio tempo descobre que saúde é tesouro que não aceita ser buscado apenas quando dói.
E não há quem, ao finalmente adotar um hábito bom, não perceba como a vida começa a respirar diferente. Há uma leveza silenciosa em cumprir aquilo que antes só se prometia. Uma sensação de reconciliação interna, como se finalmente estivéssemos no lugar exato ao qual pertencemos: o território da própria responsabilidade. A sensação de missão cumprida é tão boa que deve liberar mesmo essa tal de endorfina. Ando buscando as boas rotinas para me salvar. Enfrento a procrastinação e a desmascaro para que perca a força.
A disciplina, quando acolhida, abre caminhos. E nós, quando entendemos que o extraordinário nasce do ordinário repetido com amor, descobrimos que crescer não é difícil. Difícil é começar. Mas, uma vez iniciado, o caminho se torna mais nosso a cada passo.

Luís Alberto de Moraes – @luis.alb – Autor do livro “Costurando o Tempo – dos Caminhos que Passei”