Querida pessoa que sente fundo,
Escrevo para você que aprendeu, cedo ou tarde, que nem toda dor pode ser dita em voz alta. Para você que descobriu, no silêncio, um jeito diferente de sobreviver: transformando feridas em versos, lágrimas em cores, ausências em melodias. Você não escolheu sentir demais. Apenas nasceu com o coração aberto, vulnerável ao mundo, atento a tudo o que passa. E, quando percebeu que nem sempre havia espaço para sua sensibilidade, fez dela um abrigo. Um lugar seguro onde podia existir sem pedir permissão.
Enquanto alguns fogem da dor, você a observa. Analisa. Toca. Traduz. Você pega aquilo que machuca e, com mãos tremidas, molda em algo bonito. Em algo que respira. Em algo que consola.
Talvez poucos saibam, mas cada texto seu carrega uma madrugada acordada. Cada desenho guarda uma saudade escondida. Cada canção nasceu de um nó na garganta. Cada bordado de um coração cheio de incertezas. Sua arte é feita de histórias que não couberam nas conversas comuns. De sentimentos que não encontraram colo, mas encontraram papel, tela, som. E, mesmo assim, você segue criando.
Segue escrevendo quando o mundo parece pesado demais. Segue pintando quando o coração pede pausa. Segue cantando quando a mente está em ebulição. Segue bordando quando a alma pede socorro. Você transforma o que poderia te quebrar em algo que sustenta. Não é fraqueza. Nunca foi. É coragem. É preciso ser muito forte para olhar para dentro e não fugir. Para encarar as próprias sombras e convidá-las a dançar com a luz. Para transformar cicatriz em linguagem.
Às vezes, você se pergunta se alguém entende. Se alguém percebe o quanto de você existe em cada detalhe. Talvez não percebam. Talvez vejam só o resultado final, sem imaginar o processo silencioso por trás. Mas eu vejo. Vejo a pessoa que escolheu não endurecer. Que preferiu sentir, mesmo sabendo que dói. Que respondeu ao caos com beleza.
Sua arte não é só expressão. É sobrevivência. É oração sem palavras. É pedido de socorro disfarçado de poesia. É abraço oferecido ao mundo enquanto você mesmo precisa de um. E, ainda assim, você oferece.
Você ensina, sem discursos, que sentir não é fraqueza. Que chorar não diminui. Que criar é um ato de resistência. Que continuar é uma forma de amor. Se um dia duvidar do seu valor, lembre-se: alguém já encontrou conforto em algo que você criou. Alguém já se sentiu menos sozinho ao ler, ouvir ou ver o que nasceu da sua dor.
Você transforma feridas em horizontes.
Onde antes havia dor, agora existe sentido. Onde antes havia silêncio, agora existe voz. E isso não é comum. Isso é dom. Continue. Mesmo quando parecer pouco. Mesmo quando ninguém aplaudir. Mesmo quando só você souber o quanto custou.
Sua sensibilidade não é excesso. É luz. É ela que toca, que acolhe, que fica. E a sua história, com todas as marcas, merece ser honrada. Com carinho, para quem faz da dor um recomeço, da arte um lar.
Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.