Carta para quem ama (ou odeia) o Carnaval  

Querida pessoa que sente fevereiro chegar diferente,

Escrevo para você que conta os dias para colocar a fantasia, sair de casa com glitter no rosto e o coração aberto para a alegria. Você, que espera ansiosamente o som do primeiro tambor, a rua tomada de cores e a sensação de que, por alguns dias, a vida pode ser mais leve. E escrevo para você que, nessa mesma época, conta os dias para o silêncio voltar, fecha a janela, aumenta o volume da música tranquila e sonha com um feriado sem barulho. Eu vejo você… ou melhor, vejo vocês!

Vejo quem se sente vivo no meio da multidão, dançando com desconhecidos que, por algumas horas, viram família. Vejo quem encontra liberdade no bloco, no riso solto, no corpo que se move sem pedir permissão. Quem encontra no Carnaval uma forma de existir sem amarras. Gente que passa o ano inteiro sendo séria, contida, responsável, e que, nesses dias, se permite ser apenas corpo, riso, música e presença. Para essas pessoas, a festa não é excesso, é sobrevivência. É respiro, é quase um recomeço e a lembrança de que a vida também é festa.

Mas também vejo quem se sente cansado só de imaginar a multidão. Quem se sente invisível no meio do barulho. Quem não gosta de filas, de empurrões, de agendas cheias, de noites sem descanso. Quem prefere um livro, um café demorado, uma tarde quieta. Para você, o Carnaval é apenas um lembrete de que nem toda alegria precisa ser barulhenta. E está tudo bem.

Vivemos em um tempo que romantiza o movimento, o excesso, a exposição. Parece que, se você não está vivendo tudo intensamente, está perdendo alguma coisa. A verdade é que o Carnaval não é sobre rua cheia ou casa vazia. É sobre como cada um escolhe respirar nesses dias. Há quem respire no batuque. Há quem respire no silêncio. Há quem encontre paz na avenida. Há quem encontre paz no quarto. Alguns celebram dançando. Outros, descansando. Alguns, gritando de alegria. Outros, sussurrando gratidão.

O carnaval mostra quem floresce no caos. E quem floresce na calma. Talvez o maior aprendizado dessa festa, que alguns chamam de excessiva e outros de sagrada, seja nos ensinar a respeitar o ritmo do outro. Nem todo coração dança na mesma música. Acho que por isso essa época desperte tantos julgamentos. Quem ama, acha estranho quem foge. Quem foge, acha exagero quem ama. E, no meio disso, esquecemos que não existe uma única forma certa de estar no mundo. Existe a sua.

Se você ama o Carnaval, vá com coragem. Vista sua fantasia, pinte o rosto, cante alto, dance sem medo. Que sua alegria seja leve, respeitosa e verdadeira. Que você volte para casa com histórias, não com feridas. Se você não ama, honre isso. Permita-se desligar. Criar seus próprios rituais. Dormir mais. Caminhar devagar. Cuidar da alma. Não se force a caber onde não se sente inteiro.

No fim, o que importa não é onde você está nesses dias, mas se você está inteiro neles.

Com ou sem confete, com ou sem folia, desejo que você se escolha. Sempre.

 

Drielli Paola – @drielli_paola. Servidora Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo. Bacharel em Direito, com pós-graduação e extensões universitárias na área jurídica. Entusiasta de psicologia, história, espiritualidade e causa animal. Apaixonada pela escrita.